Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil

Enviada em 23/04/2021

Na mitologia grega, Sísifo foi condenado por Zeus a rolar uma enorme pedra morro acima eternamente. Todos os dias, Sísifo atingia o topo rochedo, contudo era vencido pela exaustão, assim a pedra retornava à base. Atualmente, esse mito assemelha-se à luta cotidiana dos artistas de rua na sociedade brasileira, os quais buscam ultrapassar as barreiras as quais os separam do direito à liberdade de expressão. Nesse contexto, cabe analisar tanto a perpetuação de conceitos arcaicos quanto a ausência de incentivo das escolas como impulsionadores dessa problemática.

Nessa perspectiva, deve-se ressaltar a influência da visão estereotipada, oriunda de antigos conceitos relacionados à arte, na depreciação das manifestações artísticas urbana. Diante de tal exposto, é evidente que, a partir do movimento dadaísta, o pintor e escultor Duchamp já defendia um conceito fluido de arte, o qual valoriza a ressignificação de objetos e de situações do cotidiano. Entretanto, apesar da validade teórica desse pensamento, grande parte da população brasileira ainda interpreta de forma preconceituosa e depreciativa a arte urbana, como o grafite, por estarem “presos” no senso comum a respeito do conceito de arte. Dessa forma, os artistas de rua são, muitas vezes, rebaixados e desqualificados e não têm o seu trabalho valorizado, evidenciando que a visão defendida por Duchamp se encontra pouco expressiva na sociedade.

Ademais, é fulcral salientar que a arte urbana ainda é pouco discutida nos meios formadores de opinião, como as escolas. Sob tal ótica, é notório que o ensino público se restringe ao discutir sobre as manifestações artísticas, visto que muitos colégios não trabalham, por exemplo, com projetos de incentivo à arte, exposições de murais e palestras com grafiteiros. Dessa forma, os alunos só têm acesso àquilo que se encontra nos livros, não possuindo uma visão ampla sobre o que é de fato a arte de rua e sua importância na contemporaneidade. Essa conjuntura ratifica a linha de pensamento do sociólogo Edgar Morin, ao defender que, ao invés da especialização das disciplinas, é necessário um ensino transdisciplinar que possibilite uma interpretação mais integral do mundo.

Portanto, a desvalorização da arte urbana é um desafio para o país que requer a criação de políticas públicas. Para tanto, cabe ao governo, por intermédio do Ministério da Educação, incentivar e abordar com mais frequência a arte, com a elaboração de projetos e palestras com os artistas de rua nas escolas, fazendo com que os alunos aprendam na prática o verdadeiro significado das manifestações artísticas, no intuito de contribuir na formação e gerar uma mentalidade que reconheça os valores da arte urbana contemporânea. Somente assim, a realidade distanciar-se-á do mito grego e os Sísifos brasileiros vencerão o desafio de Zeus.