Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil
Enviada em 24/04/2021
No atual contexto da sociedade brasileira, observa-se com notoriedade um estigma no que diz respeito à valorização e ao respeito da Arte de rua. Um acontecimento que exemplificou esse estigma foi a promoção das campanhas “anti-pichações” no ano de 2017, realizadas pelo então prefeito de S. Paulo João Doria, que afirmou que ao fazê-lo estaria mostrando apoio à cidade, entretanto repúdio aos pichadores. Esse pensamento nocivo parte não apenas do agora governador, como também de diversas parcelas da sociedade, demonstrando uma visão que marginaliza a Arte Urbana e que desvaloriza qualquer significado que essa possa ter.
Sob esse viés, é importante ressaltar que a própria legislação brasileira reconhece esse muralismo como uma prática de cunho legal, sob o consentimento dos donos da propriedade onde será realizada. O que se observa no real contexto da Terra dos Papagaios, entretanto, vai de encontro ao que está escrito no papel. Por ser uma expressão de arte majoritariamente ligada às periferias e às parcelas mais pobres, diferindo-se da Arte considerada culta, erudita e “legitimada” encontrada em museus, a Arte das ruas encontra como obstáculo justamente essa forma de pensamento que categoriza, exclui e desvaloriza manifestações de caráter popular.
Para mais, evidencia-se no período correspondente ao Regime Militar Ditatorial brasileiro o surgimento das primeiras manifestações de Arte Urbana no país. Naquele período, os artistas utilizavam de pichações e de desenhos nas paredes dos centros urbanos como forma de protesto e de reflexão sociais. Todavia, aquilo que era visto como proteto pelos próprios protestantes, por sua vez era visto como vandalismo por aqueles que discordavam dos seus ideais. Assim, como uma parte da herança deixada pela década de 60, outro desafio para a valorização da “Sreet Art” que perdura nos tempos hodiernos é a desconstrução do pensamento de que essa não passa de uma vandalização raivosa e sem qualquer objetivo que precisa ser censurada.
Fazem-se necessárias, portanto, medidas que visem efetivamente remediar essa visão depreciativa historicamente construída. Para isso, é de suma importância que o Ministério da Cidadania, no seu papel de supervisor dos aspectos culturais, introduza nas escolas públicas programas instrutivos sobre o papel, o significado, e a importância da Arte Urbana, e além disso que faça com que esse tema seja obrigatório na grade curricular de ensino na disciplina de Artes. Desse modo, as gerações mais novas terão a oportunidade de entrar em contato com a 3° Arte das ruas sem a visão negativa pré-concebida construída durante os séculos passados. Assim, um pensamento progressista e respeitoso cultivar-se-á alimentado pela educação, que por sua vez tem o poder de mudar o modo como uma sociedade pensa.