Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil
Enviada em 20/04/2021
A novela ‘‘Cheias de Charme’’, exibida pela produtora Rede Globo, narra os embates vividos pelo artista Rodinei na busca por moralizar a prática do grafite. Nesse sentido, nota-se um espelhamento entre a obra ficcional e a realidade, haja vista que a valorização dessa e de todas as demais vertentes da arte urbana enfrenta sérios desafios no Brasil. Dessa forma, o descaso estatal e o preconceito popular são fatores críticos a se superar.
Vale destacar, preliminarmente, a inércia governamental como tópico crítico da problemática. Sob essa óptica, o pintor muralista Eduardo Kobra declarou publicamente que encontrou dificuldades em financiar o seu trabalho no início da carreira, tendo sido posto à margem e privado de quaisquer projetos assistenciais. Percebe-se, portanto, incoerência na postura pública, uma vez que a Constituição Federativa aponta como dever da União financiar todas as expressões de cultura, o que explicita um quadro insustentável de negligência política.
Ademais, o julgamento errôneo das massas com relação a urbanografia é aspecto agravante da conjuntura. Nessa perspectiva, o sociólogo francês Pierre Bourdieau, em sua teoria de ‘‘Violência Simbólica’’, define como ação agressiva qualquer ato de omissão prejudicial ao progresso social. Assim sendo, a mídia é violenta ao se isentar de seu papel esclarecedor ao não representar as formas plurais distintas de arte, a colaborar para com a cristalização de estereótipos nocivos. Logo, medidas eficazes devem ser postas em prática para transpor os presentes impasses.
Diante disso, compete ao Ministério da Cidadania ofertar auxílios para artistas urbanos, por intermédio de uma parceria com a Receita Federal. Por sua vez, essa colaboração deve garantir o destino de, pelo menos, 2% dos impostos anuais para a oferta de bolsas a trabalhadores da área em baixa renda, a fim de fomentar atuação pública. Além disso, cabe ao Ministério das Comunicações lançar campanhas publicitárias que atentem para a relevância da arte urbana para mitigar o preconceito. Dessa maneira, o enredo de ‘‘Cheias de Charme’’ há de se limitar à televisão.