Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil

Enviada em 26/04/2021

A Semana de Arte Moderna, evento ocorrido em 1922 na cidade de São Paulo, realizou uma proposta de eliminação de esteriótipos estéticos propagados nas representações artísticas anteriores. Entretanto, quase um século após o início de tal desconstrução, preconceitos relacionados à arte urbana ainda são frequentes no Brasil, o que dificulta a valorização dessa expressão contemporânea. Nesse contexto, cabe analisar tanto a perpetuação de conceitos arcaicos quanto a ausência de incentivo das escolas como impulsionadores dessa problemática, a fim de revertê-la.

Nessa perspectiva, deve-se ressaltar a influência da visão estereotipada, oriunda de antigos conceitos relacionados à arte, na depreciação das manifestações artísticas urbana. Diante de tal exposto, é evidente que, a partir do movimento dadaísta, o pintor e escultor Duchamp já defendia um conceito fluido de arte, o qual valoriza a ressignificação de objetos e de situações do cotidiano. Entretanto, apesar da validade teórica desse pensamento, grande parte da população brasileira ainda interpreta de forma preconceituosa e depreciativa a arte urbana, como o grafite, por estarem “presos” no senso comum a respeito do conceito de arte. Dessa forma, os artistas de rua são, muitas vezes, rebaixados e desqualificados e não têm o seu trabalho valorizado, evidenciando que a visão defendida por Duchamp se encontra pouco expressiva na sociedade.

Ademais, é fulcral salientar que a arte urbana ainda é pouco discutida nos meios formadores de opinião, como as escolas. Sob tal ótica, é válido destacar os pensamentos do sociólogo Edgar Morin, o qual defende que, ao invés da especialização das disciplinas, é necessário um ensino transdisciplinar que possibilite uma interpretação mais integral do mundo. Entretanto, o que ocorre no âmbito educacional é o oposto do que o sociólogo diz, uma vez que o ensino público se restringe ao discutir sobre as manifestações artísticas, visto que muitos colégios não trabalham, por exemplo, com projetos de incentivo à arte, exposições de murais e palestras com grafiteiros. Dessa forma, os alunos só têm acesso àquilo que se encontra nos livros, não possuindo uma visão ampla sobre o que é de fato a arte de rua e sua importância na contemporaneidade.

Portanto, a desvalorização da arte urbana é um desafio para o país que requer a criação de política pública. Para tanto, cabe ao governo, por intermédio do Ministério da Educação, incentivar e abordar com mais frequência a arte, com a elaboração de projetos e palestras com os artistas de rua nas escolas, fazendo com que os alunos aprendam na prática o verdadeiro significado das manifestações artísticas, no intuito de contribuir na formação e gerar uma mentalidade que reconheça os valores da arte urbana contemporânea. Somente assim, será possível acabar com o estigma relacionado à arte.