Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil
Enviada em 09/06/2021
Em sua música “Gentileza” a cantora Marisa Monte denuncia e expressa os males da sabotagem a “street art”, vítima da marginalização e censura. Analogamente, nota-se no Brasil a conservação de preconceitos relacionados a manifestações culturais urbanas, que enfrentam desafios para alcançar a valorização e o reconhecimento popular.
No que tange a relevância da arte de rua, torna-se perceptível sua utilização como veículo de comunicação sociocultural, abrangendo as linguagens verbais e não verbais, encontrando-se em espaços acessíveis a todos os públicos. Por conseguinte, destaca-se como um mecanismo expressivo, propagador de protestos e mensagens de conscientização, sobretudo atrelados a realidade das periferias e grandes centros urbanos. Exemplificada pelas produções do grafiteiro e muralista Eduardo Kobra, que visa dialogar com questões sociais, como violência ambiental e preconceito racial.
Entretanto, intervenções artísticas ainda sofrem com a discriminação e intolerância, uma vez que historicamente movimentos que fogem dos parâmetros estéticos das elites e partem de grupos periféricos são hostilizados e interpretados como vândalos e degradantes, a exemplo do grafite, que é amplamente confundido com pichações. Como exposto pela cobertura de obras na cidade de São Paulo, que abrigava o maior mural a céu aberto da América Latina, através da Lei Cidade Limpa em 2017, evidenciando assim o descaso governamental em relação as produções.
Mediante ao elencado, conforme o pensamento do filosofo francês Voltaire, os preconceitos são edificados a partir da desinformação. Destarte, o baixo reconhecimento das artes urbanas nas mídias, conjuntamente com a negligencia dos currículos escolares, que ofuscam os estudos de tais aspectos, dificultam sua ascensão. Consequentemente, o boicote a estas manifestações gera o silenciamento de grupos marginalizados, que fazem de instrumentos artísticos sua principal voz, denunciando e expondo as realidades das favelas e crises políticas, configurando-se, portanto, como um bloqueio a liberdade de expressão.
Infere-se, desta forma, a necessidade do enaltecimento das produções culturais urbanas. A começar, pela criação de um projeto de lei na Câmera dos Deputados, visando o tombamento das obras, elevando-as ao status de patrimônio cultural brasileiro, garantindo sua preservação. Outrossim, tendo-se conhecimento que a educação é a base para mudança, a promoção de palestras e debates gerenciados pelo MEC, objetivando a transmissão didática da história e característica deste gênero artístico, em parceria com o desenvolvimento de campanhas informativas pelo Ministério das Comunicações, buscando a conscientização popular e a gradual desconstrução de preconceitos.