Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil

Enviada em 08/06/2021

O documentário Pixo de 2008 mostra a realidade da pichação na cidade de São Paulo. Nele, os pichadores dizem que, se o ato fosse legalizado, ele seria extinto, porque a pichação deriva da anarquia e expressa revolta contra o sistema. A partir disso, no Brasil, criminalizar práticas espontâneas de arte urbana faz-se o maior desafio para a valorização dela e acaba gerando, consequentemente, maior volume de pichação e o aumento da violência policial.

Inicialmente, o antropólogo Alexandre Barbosa Pereira afirma que o picho trabalha com a noção de perseguição - servindo até mesmo como atrativo para os jovens picharem mais ainda. Analogamente, no ano de 2017, o prefeito João Dória, com o projeto Cidade Limpa, pintou de cinza diversos muros contendo grafites ou pichações não autorizados. Afirmou, também: “Se preferirem continuar pichando a cidade, terão o rigor da lei. É tolerância zero”. Consequentemente, ato gerou revolta e a resposta foi em forma de arte das ruas, especialmente contendo ofensas e críticas ao político. Logo, percebe-se que a solução do entrave não está na forte criminalização, tampouco no direcionamento de espaços exclusivos para tais manifestações, uma vez que a transgressão faz parte do movimento urbano.

Em segundo plano, a violência policial está diretamente ligada à criminalização das práticas de pintura independente nos prédios e muros das cidades. Em 2014, dois pichadores foram executados por policiais militares a tiros no bairro da Mooca, em São Paulo. Essa atitude deriva, principalmente, do tratamento legislativo para com estes indivíduos: não são vistos como artistas, mas sim como criminosos. A truculência com que João Dória reafirma o rigor da lei dá, indiretamente, o incentivo necessário para os policiais agirem com agressividade quanto aos artistas de rua não reconhecidos. Este cenário violento, portanto, impulsiona a revolta contra o sistema por esses jovens periféricos, resultando na pichação.

Finalmente, faz-se imprescindível que o Ministério da Educação e Cultura (MEC) promova debates entre políticos e artistas urbanos, através de reuniões anuais nas prefeituras e eventos de cunho artístico, como a Virada Cultural, de modo a cessar as guerras travadas devido às divergências de pensamento quanto a beleza das cidades. A conquista de acordos entre ambos os lados pode ser realizada por trocas como: os pichadores não terão como alvo certos locais da cidade caso a polícia cumpra com a Lei e não violente os artistas. Desse modo, a nação brasileira poderá superar os desafios para a valorização da arte urbana.