Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil
Enviada em 29/05/2021
Brás Cubas, o defunto-autor de Machado de Assis, diz em suas “Memórias Póstumas” que não teve filhos e não transmitiu a nenhuma criatura o legado da miséria da nação. Hodiernamente, talvez ele percebesse acertada sua decisão: a postura de muitos brasileiros frente aos desafios para a valorização da arte urbana no Brasil é uma das faces mais perversas de um corpo social em desenvolvimento. Com isso, surge a problemática da desvalorização artística que persiste intrinsecamente ligada à realidade do país, seja pelo enraizamento do eurocentrismo, seja pela capitalização da cultura.
Em primeiro lugar, vale ressaltar a glorificação oriental como principal catalisador do impasse. Nesse viés, na obra modernista “Macunaíma”, Mário de Andrade tinha por objetivo resgatar a identidade cultural do Brasil denunciando o eurocentrismo presente nas obras e sociedade da sua época. Em um dos trechos, o protagonista indígena ao tornar-se branco, após lavar-se em uma poça mágica, e chegar à São Paulo, passa a se comportar de modo contrário à cultura de seu povo, deixando evidente o abandono de sua individualidade cultural. Sob esse sentido, a depreciação da arte urbana está diretamente ligada à escassez de prestígio pelo que é culturalmente brasileiro. Há décadas “artistas de ruas” buscam mérito de suas artes, muitos, impondo respeito por intermédio de grafites espalhados por todos os lugares, transfigurando as cidades brasileiras para uma personalidade própria.
Ademais, o mercado capitalista da cultura impossibilita aos artistas urbanos fazer da arte uma profissão. Assim, conforme o filósofo Félix Guattari, em suas análises acerca dos sentidos de cultura, explicou a chamada cultura-mercadoria como sendo a que é tratada e vendida como produto, e que como consequência, prioriza a que é mais rentável. Visto que a arte é objeto de reconhecimento entre indivíduos, e que em sua maior parte, a arte urbana retrata a visão periférica a respeito do mundo, o público-alvo dessa expressão cultural, é por decorrência, a classe de baixo poder aquisitivo que não tem como consumir financeiramente essa cultura. Em vista disso, se não há um mercado consumidor, por conseguinte não há espaço para o desenvolvimento artístico urbano.
Portanto, a desconstrução da centralidade europeia, ainda latente na coletividade nacional, e um mercado cultural que prestigie a arte urbana, faz-se necessário. Logo, cabe ao Ministério da Cidadania, órgão responsável pelas políticas de desenvolvimento social, por meio das secretárias estaduais e municipais, promover concursos para artistas urbanos que visem a pintura de espaços públicos, como forma de engendrar na população o reconhecimento artístico de um trabalho que expressa em muito o país.