Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil
Enviada em 07/06/2021
No ano de 1904, a alta elite “europeizada” brasileira enraiveceu-se com o então presidente Hermes da Fonseca e sua esposa, Nair de Teffé, em uma recepção promovida no Palácio do Governo. Isso ocorreu devido à escolha de um maxixe -gênero musical tipicamente brasileiro- para ser tocado no evento, em detrimento das consagradas valsas. Apesar do hiato temporal, atualmente, grande parcela da população tem, assim como os convidados de Nair, um enorme preconceito contra as expressões artísticas populares, sobretudo a urbana. Nesse contexto, é fundamental a discussão acerca da visão elitista ainda existente nesse âmbito, bem como da supervalorização da cultura exterior.
Nota-se, inicialmente, que um dos maiores desafios para a valorização da arte urbana no país é a perspectiva elitista do conceito artístico. Essa problemática acontece, pois está enraizada no senso comum a ideia de que a arte deve se limitar apenas às paredes de galerias e museus. Tal conjuntura é reflexo de uma sociedade historicamente conservadora, que, ao longo do tempo, tentou calar a voz popular de várias formas. Esse contexto pode ser exemplificado com a criminalização do samba, no início do século XX, que, por ser produzido pela população de baixa renda, representava a “vadiagem” aos olhos do Estado. De maneira análoga, em 2017, o então prefeito de São Paulo, João Doria, por meio de um projeto intitulado “Cidade Limpa” decidiu “limpar” da capital paulista inúmeros grafites -uma das principais expressões artísticas da camada marginalizada da população.
Ademais, o processo de elitização da arte que ocorreu no país ocasionou a supervalorização de expressões artísticas estrangeiras. Dessa forma, a cultura europeia ocupou um status e significado importantes na sociedade. Sob esse contexto, o estudioso brasileiro Nelson Rodrigues afirma que a sociedade brasileira possui uma “síndrome de vira-lata”, que se constitui na tendência em menosprezar a cultura nacional e idolatrar a de outros países. Dessa forma, assim como o maxixe foi considerado vulgar no século XX, o grafite continua sendo subjugado na sociedade atual, vide a ação ocorrida na capital paulista em 2017.
São necessárias, portanto, medidas que tirem a arte urbana da marginalidade. Para isso, a Secretaria da Cultura deve promover um maior contato dos indivíduos com a cultura urbana desde a mais tenra idade. Isso ocorrerá por meio de um projeto a nível nacional a ser adotado em todas as escolas públicas e particulares, cujo objetivo será incluir, na grade curricular, o estudo das expressões artísticas populares, com a inclusão de visitas a espaços de produção e exposição desse tipo de arte. Essa ação, além de pôr fim ao estigma de que a arte urbana é sinônimo de vandalismo, também incentivará a valorização dessa desde a infância. Dessa forma, o pensamento “europeizado” será deixado para trás.