Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil

Enviada em 04/06/2021

Em 1917, Marcel Duchamp expôs “A Fonte”, um mictório ao qual atribuiu um valor artístico e que, por isso, chocou mundialmente a sociedade conservadora, que considerava arte apenas os modelos tradicionais. Hoje, apesar do hiato temporal, é possível perceber as marcas de um conceito artístico arcaico enraizado ao longo dos séculos ao notar que, no Brasil, a arte urbana enfrenta obstáculos ao tentar ocupar espaço nas cidades do país. Assim, faz-se pertinente discutir os padrões estéticos eruditos que ainda acercam a sociedade, bem como eles têm o poder de ditar o que deve ser considerado artístico.

Com efeito, é preciso admitir que há um silenciamento das expressões artísticas de grupos minoritários. Isso acontece porque, ainda que a arte seja uma expressão da subjetividade, ela ainda é socialmente utilizada como instrumento segregacional pela minoria detentora de poder econômico. Dessa maneira, ao considerar apenas a arte erudita como a única que deveria ser consumida e propagada, essa parcela da sociedade desenvolve a propagação de preconceitos que dificultam a aceitação da arte urbana no meio social. Nesse contexto, à luz do sociólogo francês Henri Lefebvre, o direito a cidade, inerente a todo cidadão, é negado àqueles que não seguem os padrões eruditos, já que lhes são negados a sua forma de expressão.

Convém pontuar, ainda, que a arte urbana não exerce o papel como veículo fundamental de uma forma de estímulo criativo e consciência artística da cidade. Tal questão pode ser observada ao se analisar que apenas em 2009 foi aprovada uma lei que descriminalizava a arte de rua. Assim, ainda que ela devesse ser considerada como marcas artísticas específicas de um centro urbano, por muito tempo ela foi combatida. Contudo, é possível observar como a arte urbana poderia ser posta como algo positivo ao se observar o projeto idealizado pelo artista Kléber Pagú, que pretende transformar e revitalizar o centro de São Paulo em grafites de mares e rios, promovendo uma visão diferente dos muros cinzentos aos quais os moradores estão acostumados.

Portanto, admite-se que a arte urbana deve ter o seu espaço nas cidades brasileiras. Para isso, o Ministério da Educação, responsável pela formação dos cidadãos, deverá, em parceria com a Mídia Socialmente Engajada, promover políticas públicas que incentivem e estimulem a criatividade artística dos brasileiros. Isso poderá ser ofertado a partir de oficinas de arte realizadas em escolas de rede públicas e privadas, abertas à comunidade em geral, a fim de que sejam ofertadas a todos a experiência de uma visão positiva e livre de elitizações ou preconceitos sobre as diversas expressões de arte. Sendo assim, diferentemente da sociedade do século XX, a arte poderá ser admirada sem limitações.