Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil

Enviada em 04/06/2021

Em seu livro “O Espírito das Leis”, Barão de Montesquieu, filósofo iluminista, prevê a correlação entre as leis positivas - frutos da jurisdição humana - e o contexto social dos povos, uma vez que, para estabelecer vínculos íntimos com este, aquelas deveriam atuar como objeto de conciliação de suas mais marcantes necessidades - a preservação da identidade cultural nacional, por exemplo. Contudo, a difusão desse preceito tem encontrado sérios obstáculos oriundos da desvalorização da arte urbana no Brasil, resultado da polarização ideológica nas redes e aparelhamento de campanhas de vigilância.

A princípio, convém ressaltar a contribuição do caráter sistemático da individualização dos “feeds” informacionais nas mídias cibernéticas à perpetuação de delitos consequentes ao processo de marginalização de artistas de rua. Nesse sentido, o documentário “O Dilema das Redes” explicita mecanizações corporativistas no ambiente virtual, de modo que, por serem extremamente personalizados, os algoritmos tendem a mostrar conteúdos audiovisuais similares a buscas anteriores com o intuito de formar bolhas inflexíveis de opinião. Com isso, a fluidez da “web” transforma-se em um artifício criador de diversos “Brasis” radicalizados por correntes de “fake news” cujas inclinações tendem à poluição da consciência coletiva a partir da banalização do vandalismo.

Ademais, é prudente elevar a desigual distribuição regional de forças federais fiscalizadoras de transgressões do livre-arbítrio remetentes à depredação inautorizada de obras muralistas ao grau de agravante do impasse no Brasil. Diante disso, filme “Star Wars: A Ameaça Fantasma” traça paralelos com o cotidiano de uma miríade de localidades herdeiras do mandonismo clássico, tendo em vista que o prestígio das oligarquias do subdesenvolvido planeta Tatooine mostrou-se capaz de naturalizar suas deturpações de princípios juspositivistas - dadas, na ficção espacial, pela escravização do jovem Anakin Skywalker - devido à completa ausência de órgãos éticos de regulação. Assim, mecanismos que deveriam caracterizar o fortalecimento do combate a crimes de cunho enganosamente moralizador encontram-se sujeitos à maleabilidade “conservadora” e elitista em regiões afastadas da influência das autoridades, o que cotidianiza a lei “do mais forte” em paralelo à constitucional.

Portanto, é viável inferir que, no país, a importância da representatividade artística nas cidades é inversalmente proporcional aos esforços populares para com sua reverberação. Dessa forma, urge que o MEC crie, por meio de verbas governamentais, palestras interativas acerca da temática em instituições educadoras nacionais, principalmente no Norte e Nordeste, cujas taxas de escolaridade são extremamente baixas, a fim de relacioná-la à polarização ideológica nas redes. Somente assim a consciência coletiva superará os ultrajes relatados em “O Dilema das Redes” integralmente.