Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil
Enviada em 28/07/2021
A partir de 1988, com a abolição da escravatura, muitas outras questões surgiram advindas do apoio nulo do governo à população negra. Já no começo do século XX, a cultura negra e popular passou a ser criminalizada, como sinal de “vagabundagem”. Anos depois desses episódios nefastos, o estigma negativo quanto às artes urbanas continua vigorando no ideário popular, e sua idealização configura um desafio enorme, já que os conceitos se misturam e parte da população discrima esse tipo de expressão.
Nesse contexto, como deixou claro o italiano Italo Calvino, em “As cidades invisíveis”, o ambiente urbano diz muito a respeito da personalidade dos habitantes e de suas necessidades. Sendo assim, a arte urbana é essencial para nos entendermos enquanto sociedade, já que ela, quando não tem finalidade puramente estética, pode denunciar, chamar atenção ou elogiar certos aspectos culturais que antes passavam despercebidos, sem tanta relevância. Ademais, além de expressar sentimentos e urgências sociais, os desenhos também estimulam a criatividade, podem gerar renda e engajar sociopoliticamente os jovens, estratégias que ampliam o horizonte de possibilidades deles, já que grande parte da cultura do grafite surgiu nas periferias, inspirada pelos anseios do meio.
Não obstante, justamente por ser uma prática popular, advinda de ambientes menos elitistas, ela é desconsiderada por boa parte da sociedade brasileira, a qual nutre um forte “complexo de vira-lata”, como atestou Nelson Rodrigues, dando foco para a cultura estrangeira, geralmente de países de “primeiro mundo”. Dessa forma, a hegemonia dos costumes de que falava Gramsci fica terrivelmente visível, pois muitas ações são realizadas de modo a limitar as expressões artísticas da cidade, assimilada como vandalismo por vários segmentos da população, o que denota um grave estigma acerca dos grafites, traduzida em desigualdade social e descriminação pela arte da “favela”. Todavia, tal forma de expressão é legítima, assegurada por lei e, se fosse melhor aceita, poderia ser de grande contribuição para incrementar a cultura do Brasil, suprimindo dos prédios o cinza melancólico predominante, assegurando muita identidade para as cidades do país — e ainda mais diversidade.
Portanto, diante dos argumentos defendidos, compete ao governo, em parceria com a mídia, estimular a valorização da arte urbana, bem como assegurar o trabalho dos artistas. Isso pode ser feito por meio de políticas públicas de financiamento artístico, com o contrato de grafiteiros para atribuir personali–dade a fachadas de prédios, por exemplo, desenvolvendo novos pontos turísticos na urbe, e de campa-nhas midiáticas, a fim modificar o ideário do restante dos cidadãos ainda avessos a esse tipo de mani-festação cultural. Com isso, será possível valorizar expressões da arte urbana que foram por muito tem-po inviabilizadas, e superar o complexo de inferioridade voluntária a que os brasileiros se submetem.