Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil
Enviada em 17/07/2021
Remonta da pré-história o anseio do homem por expressar a sua subjetividade. De modo que, na parede da caverna paleolítica, o hominídeo concebe a gênese da arte visual: a pintura rupestre. Isto posto, com o passar dos séculos, o fazer artístico revoluciona-se à medida que a produção, antes restrita às telas e aos museus burgueses, ocupa as ruas. Assim sendo, a urbe brasileira permeada por intervenções desconstrói as definições de arte. Contudo, apesar da expansão, a arte urbana permanece subvalorizada em face de uma sociedade europeizada que marginaliza o “não erudito” e estigmatiza grafiteiros ao tratá-los enquanto vândalos.
Em primeira análise, é indubitável que as metrópoles se tornaram, sobretudo devido à ineficiência estatal, espaços em que há a progressiva degradação das pessoas e do tecido urbano. Ante a isso, inúmeros indivíduos encontram no grafite uma forma de refúgio, bem como de contestação e ativismo. Entretanto, por consolidar-se entre os excluídos, o corpo social orientado pelo preconceito rejeita o artista “marginal” e criminaliza a arte em um ambiente de construções etéreas. Consoante a isso, o ativista e grafiteiro britânico, Banksy afirma: “as pessoas que mandam nas cidades não entendem o grafite porque acham que nada tem o direito de existir se não gerar lucro.” Por conseguinte, evidencia-se a urgência de se subverter ideais tão obsoletos.
Em segunda análise, cabe ressaltar que o Brasil oitocentista instaurou uma cultura de imitação dos valores europeus. Isto posto, a partir de uma visão eurocêntrica do que é belo, visava-se a homogeneidade do cânone artístico, de modo a não existir lugar para manifestações que reivindicam a rua. Nesse viés, o sociólogo Herbert Marcuse discorre sobre a existência de uma cultura afirmativa, a qual assegura os valores da burguesia, ao passo que reafirma os valores de inferioridade de outros grupos, por meio de narrativas na pintura, no cinema, na música e literatura. Logo, o caminho para o reconhecimento da arte urbana reside na luta contra uma hegemonia cultural que se recusa a consagrar as manifestações advindas da rua como arte.
À vista disso, depreende-se a iminência de serem criadas medidas que promovam a valorização do neoexpressionismo que ocupa as construções. Portanto, urge que o Ministério de Cidadania associado ao Ministério da Educação promova a reflexão acerca da temática entre os cidadãos, por meio de discussões nas escolas e de oficinas de arte urbana, nas quais ocorrerá a cisão de um ensino inteiramente pautado nas produções europeias. Assim como a instrução sobre muralismo, grafite e pichação mediante a apresentação de artistas nacionais. De modo a incutir a ideia de embelezamento pela arte urbana e atenuar uma visão maniqueísta.