Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil

Enviada em 20/07/2021

O documentário brasileiro “Pixo” demonstra, pela ótica da população periférica, a visão dos artistas urbanos sobre seu meio de expressão na grande São Paulo, com o intuito de contrapor preconceitos vigentes em relação a essa prática, visto que grande parcela dos cidadãos de classe média ou alta veem a arte de rua como vandalismo ou agressão aos centros urbanos. Nesse contexto, ainda observa-se que, na conjuntura brasileira contemporânea, devido a conceitos preconceituosos historicamente perpetuados pelas elites, há um estigma relacionado a arte urbana no Brasil, uma vez que indivíduos praticantes desse meio de expressão são marginalizados. Assim, faz-se necessário compreender a importância dessas intervenções para a sociedade, bem como romper com sua desvalorização.

A princípio, sob a ótica do filósofo grego Aristóteles, a arte tem a utilidade prática de completar o que falta na natureza, à proporção que transparece a subjetividade humana. Diante dessa perspectiva, a manutenção da estrutura de aversão a arte urbana cria barreiras para a comunicação social e de protesto, visto que impede a propagação de mensagens populares. No final da década de 70, durante o regime militar, o grafite ganhou amplitude no Brasil como uma forma de contestação política a repressão do período, atualmente, o papel social e político da arte de rua permanece relevante, o que evidencia sua importância para todas as camadas cidadãs.

Ademais, a ausência de compromisso do Estado com a valorização da forma de expressão popular é outro ponto que fomenta a problemática. De certo, a falta de incentivos à promoção cultural e artística para a massa populacional é a realidade da política do país, resultando na elitização da arte e da liberdade de expressão. Em 2017 a Prefeitura de São Paulo tomou ações para a eliminação de artes urbanas, cobrindo-as com tinta cinza, com o argumento de que eram fruto de crimes e agressões a cidade, entretanto, a movimentação gerou diversos protestos em resistência a coibição governamental, que felizmente tiveram sucesso neste caso. Logo, comprova-se que ainda há desafios para a valorização da arte de periferia, os quais devem ser prontamente suprimidos.

Portanto, urge que o Ministério da Cidadania crie ofertas de oficinas de arte urbana para o aproveitamento geral, além de iniciar a abordagem de discussões acima da importância dessa forma expressão para o protagonismo social do país, por meio financiamentos governamentais que demonstrem a preocupação do Estado perante a problemática, a fim de valorizar todas as vertentes da cultura nacional, em prol de um país mais igualitário que reconheça a função artística nos centros urbanos e periféricos. Dessa maneira, será possível, de fato, reverter o cenário retratado em “Pixo” e caminhar para a evolução social.