Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil

Enviada em 01/08/2021

A arte periférica tem, nos últimos anos, ganhado espaço nos centros das cidades, com a chamada arte urbana. Diversos projetos em São Paulo, por exemplo, coloriram as avenidas acizentadas da capital, dando vida a corredores utilizados por trabalhadores que se deslocam todo dia da periferia. No entanto, a valorização de tais projetos como ferramentas de mudança social ainda não é amplamente conhecida, por um lado devido ao desconhecimento da população da força da arte no ambito social e, por outro, devido a essa arte estar, atualmente, limitada nos bairros centrais das grandes cidades. Por isso, deve-se pensar em soluções para divulgar a arte urbana na totalidade geográfica dos centros urbanos, com o devido apoio da população local.

A referida importância da arte na mudança social pode ser explicada a partir do conceito de “mímesis”, do filósofo grego Aristóteles, que explica a arte como um retrato da realidade passível de ser interpretado pela comunidade representada alí. Com a observação do próprio ambiente, um grupo pode identificar qualidades e defeitos suscetíveis a mudanças, culminando num eventual desenvolvimento positivo dessa sociedade. No filme “Tempos Modernos”, de Charles Chaplin, por exemplo, o sistema fordista de produção nos Estados Unidos é exposto e criticado, levando os norte-americanos do período à reflexão da própria realidade e a uma eventual mudança nesses padrões de produção. Igualmente, num contexto das periferias do Brasil, a população pode ser indagada de sua realidade por meio da arte urbana, ao mesmo tempo que apreciam corredores de deslocamento mais atraentes.

No entanto, projetos de arte urbana alcançam atualmente poucos bairros periféricos das cidades brasileiras, num impasse ressoante com a falta de cultura e lazer nessas regiões urbanas. Segundo o sociólogo Jessé de Souza, pessoas em condições similares podem ser consideradas “subcidadãos”, ao serem negadas cultura, diminuindo a qualidade de vida. Por isso, é dever do Estado resgatar esses cidadãos dessa realidade, ao pensar em projetos de arte urbana que contemplem bairros distantes do centro, desenvolvendo também essas áreas com arte e vida.

Dessa maneira, urge que o Estado tome providências para divulgar a arte urbana e valorizá-la. O Ministério da Cultura deve, portanto, desenvolver projetos de intervenção de arte nos distritos das metrópoles brasileiras, por meio de subsídios governamentais. Esses projetos devem agraciar artistas das periferias, com o desafio de representar a cultura de sua localidade, ao mesmo tempo em que devem se preocupar com a questão estética. Somente assim, a arte urbana estará em sintonia com o conceito de “mímesis”, ao indagar a comunidade local de suas qualidades a ao torná-la mais bela.