Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil
Enviada em 17/09/2021
Eduardo Kobra é um expoente do grafite mundial; nascido na periferia de São Paulo, é hoje reconhecido como um artista importante, cujo trabalho está exposto em edificações famosas, como o painel “Etnias”, criado para as olímpíadas do Rio de Janeiro. Contudo, apesar da valorização de Kobra, a arte de rua ainda enfrenta obstáculos para ter visibilidade, principalmente por causa da dominação das cidades modernas pelos espaços privados, bem como pela recorrente elitização do conceito de arte. Logo, é urgente que políticas públicas de cunho educacional e cultural sejam implementadas para garantir a valorização da arte urbana.
Sob esse viés, em primeiro lugar, é necessário ressaltar que as cidades são espaços coletivos da expressão da cultura de um povo. De acordo com o sociólogo francês Henri Lefebvre, defensor do direito à cidade, os centros urbanos devem ser um espaço de encorajamento para a liberdade e para a criatividade, sob pena de refletir apenas os interesses das grandes empresas e do capitalismo. Nesse sentido, a ocupação exagerada das cidades atuais por espaços privados dificulta a manifestação da arte urbana pela coletividade, seja pela restrição física dos locais disponíveis para a expressão artística, seja pela exclusão espacial de grupos sociais marginalizados. Dessa forma, a arte de rua é silenciada pela perda do espaço público.
Ademais, em segundo lugar, outro fator que é um óbice à visibilidade social da arte urbana é a frequente apropriação, pelos grupos dominantes, da definição do que seria arte. Isso ocorre porque, conforme elucidado pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu, a elite costuma definir seus valores e opiniões como parâmetros de qualidade, de maneira que, comumente, para uma produção ser valorizada, deve ser legitimada pelos detentores históricos do capital cultural. Consequentemente, a arte de rua, criada majoritariamente por grupos periféricos, enfrenta o desafio para ser aceita e reconhecida como tal.
Portanto, é urgente que o Estado brasileiro atue para garantir o respeito à arte e aos artistas do espaço urbano. Cabe ao Ministério da Educação, por meio da criação de oficinas de grafite nas escolas, promover a valorização dessa produção artística, especialmente entre as crianças e jovens, a fim de que as futuras gerações saibam reconhecer a pluralidade das expressões da cultura popular. Cabe, ainda, ao Ministério da Cidadania, por meio da Secretaria de Cultura, incentivar a arte de rua com a realização de concursos para revitalizar as áreas centrais das cidades com a pintura de painéis. Assim, muitos outros artistas das periferias brasileiras terão a oportunidade de levar a sua expressão criativa para o mundo, tal como faz Eduardo Kobra.