Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil
Enviada em 06/10/2021
No século XX, a filósofa alemã Hannah Arendt discutiu acerca do espaço público como local de exercício da cidadania e da liberdade, ou seja, da democracia. Nesse sentido e de maneira literal, o espaço público pode, por exemplo, por meio da arte urbana divulgar e exercitar os direitos dos cidadãos. No entanto, tal arte no Brasil enfrenta desafios, principalmente a visão de que se trata de vandalismo e que não configura um tipo de arte.
Em primeiro plano, é vital salientar a noção distorcida de que a arte das ruas é apenas vandalismo. Por esse viés, na novela “Malhação: viva a diferença” os personagens Felipe e Lica usam do grafite para combater o preconceito, mas inúmeras vezes são censurados por outros personagens, pela ideia de que estão poluindo visualmente a cidade. Em verdade, as censuras sofridas por Lica e Felipe não se restringem à ficção, estando presentes na vida real. Tal compreensão impede o exercício da arte, que inúmeras vezes não tem intenção apenas de embelezamento, mas também de denúncia social, protesto ou inclusão, como no caso da novela Malhação. Dessa forma, há perdas na implementação da cidadania.
Adicionalmente, há o pouco conhecimento a respeito do que é, e da importância da arte urbana. Sob tal ótica, nas Olimpíadas de 2016, o artista Kobra fez números murais na Cidade Olímpica do Rio de Janeiro, estampando rostos de pessoas de diferentes nacionalidades e culturas, para gerar identificação e acolhimento. A inovação de Kobra permite romper com o empecilho ainda amplamente existente de que a arte é meramente acadêmica e que deve estar presente apenas em museus e outras exposições fechadas, empecilho esse que dificulta a democratização da arte.
Portanto, são necessárias medidas que visem a superar os obstáculos enfrentados pela valorização da arte urbana no Brasil. Nessa perspectiva, o Ministério das Comunicações deve divulgar a importância da arte das ruas, além da lei criada em 2009 que descriminaliza arte urbana, com o fito de romper com a ideia de vandalismo e afirmar a função artística de embelezamento e denúncia social, por meio de propagandas a serem veiculadas nos diferentes meios de comunicação, nos horários de maior audiência e engajamento. Além disso, o Ministério da Educação deve superar a ideia de que as demonstrações artísticas são meramente academicistas, por intermédio de projetos a serem implementados nas escolas, com a finalidade de gerar indivíduos que possam desfrutar, reconhecer e criar formas artísticas, dentre elas a arte urbana.