Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil

Enviada em 27/10/2021

“Nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio”. A máxima do filósofo Heráclito consagra o movimento perpétuo do mundo e as suas mudanças, no entanto, a resistência às manifestações artísticas impedem transformações na sociedade. Nesse sentido, patologias sociais, como a desinformação e o preconceito são desafios para a valorização da arte urbana. São prementes, pois, estratégias de superação desses impasses, de modo a suscitar o embelezamento dos centros urbanos e o engajamento de protestos.

A princípio, é fato que o desconhecimento da população acerca da arte de rua dificulta a valorização dessa forma de provocação artística. Nesse viés, na sua obra “Ensaio Sobre a Cegueira”, o escritor José Saramago ressalta a magnitude de ter olhos quando todos os perderam. Fora da ficção, existe uma espécie de “cegueira social”, a qual impede a sociedade de enxergar a beleza das mensagens das obras de rua. Nesse âmbito, a falta de matérias midiáticas e a difusão de fake news sobre os artistas e os seus projetos impedem a valorização da arte de rua, pois associam essa manifestação à marginalidade. Desse modo, devido a essa desinformação, movimentos como o do museu de Kard - que transformou um antigo lixão da cidade de Vitória da Conquista, na Bahia em um museu a céu aberto, com obras de valorização da cultura e da luta nordestina - se tornam cada vez mais escassos no país.

Outrossim, o preconceito relacionado à arte urbana torna a sua valorização ainda mais difícil. Nesse contexto, em seu livro “Um Olhar a Mais”, o psicanalista Antônio Quinet defende que a sociedade contemporânea é mediada pelo olhar. Sob essa ótica, a desvalorização da arte de rua explicita o olhar preconceituoso da população sobre essa prática. Nesse cenário, a constante abordagem dessa manifestação como forma de vandalismo e de violência, aliada à repressão dos artistas de rua - cristalizada pelas prisões de muitos desses pintores - obstaculiza o advento artístico urbano  no Brasil. Posto isso, em razão dessa discriminação, artistas como Eduardo Kobra, brasileiro conhecido pela pinturas em grande dimensão ao redor do mundo, se tornam uma grande exceção e não uma regra.

Portanto, a desinformação e o preconceito dificultam a valorização da arte urbana no Brasil. Logo, é basilar que a Secretaria Especial da Cultura promova campanhas, mediante vídeos nas redes sociais, com  depoimentos de artistas de rua, em que eles demonstrem os seus objetivos na sociedade e a sua manifestação artística, com o fito de difundir conhecimento sobre o tema e de mitigar o preconceito em relação a essas obras. Assim, em um futuro não muito distante, poderão surgir mais artistas, como Eduardo Kobra, capazes de espalhar pelo país movimentos, como o do Museu De Kard e, dessa forma, dignificar as mudanças consagradas por Heráclito.