Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil
Enviada em 05/11/2021
Na música “Gentileza”, lançada no ano de 2000, a cantora brasileira Marisa Monte critica o apagamento de murais presentes nas ruas da cidade do Rio de Janeiro, pintados por Profeta Gentileza, artista andarilho que espalhava mensagens positivaspelo Brasil. Para além da obra, é comum, na atual conjuntura brasileira, cenas deploráveis como essa se repetirem, pois, há uma desvalorização e marginalização da arte urbana por parte não só do Estado, como também da sociedade. Nesse viés, torna-se imprescindível uma análise sobre as desse problema, dentre as quais se destacam a ineficácia governamental e o preconceito por parte da população.
A priori, deve-se ressaltar a relevância das manifestações artísticas de rua -como a pichação, o muralismo e o grafite- não somente na complementação da paisagem urbana, mas também como ferramenta de protesto, como é o caso de diversos murais, espalhados pelo Brasil, que estapam o rosto de Marielle Franco, mulher negra que foi brutalmente assassinada por denunciar ação de milícias em comunidades carentes no Rio de Janeiro. Porém, mesmo com funções sociais importantes, tais manifestações são constantemente marginalizadas, pois não participam de eventos ou pautas relacionadas à arte em geral, como premiações de academias ou reconhecimento por parte da grande mídia para com seus artistas. Essa exclusão, portanto, gera falta de interesse e, até mesmo, preconceito por parte da população que, por vezes, ao notar tais obras, de forma equivocada, as enxergam como poluição.
Ademais, apesar do artigo 215 da Constituição Federal de 88 - vigente no Brasil- garantir a todos o pleno exercício dos direitos culturais e o incentivo à propagação e difusão de suas manifestações, tal lei não cumpre sua função social com eficácia, na medida que, não somente inexiste um incentivo em âmbito nacional, como também há uma discriminação por parte das próprias esferas governamentais. Um exemplo desse descumprimento são os muros na cidade do Rio, que foram pintados por Pofeta Gentileza e, posteriormente, cobertos por tinta cinza pelas autoridades locais e o caso mais recente, com o então prefeito de São Paulo, João Dória, por ter agido da mesma forma, ao se deparar com as pichações em sua capital. Tais atitudes dão exemplo do quão irresponsável é a falta de conhecimento e aprofundamento do tema por parte daqueles que deveriam ampliá-lo e divulgá-lo.
Destarte, por conta dos desafios que as artes urbanas enfrentam, é crucial que Ministério da Cultura, a fim de divulgar, incentivar e garantir o direito da execução de tal manifestação artística, atue, por intermédio das escolas -lugar de discussão de difusão de conhecimento- lançando projetos de oficinas de artes que contemplem, principalmente, a urbana, com participação de artistas, alunos e professores.