Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil

Enviada em 30/10/2023

Em “Otelo”, obra literária do dramaturgo inglês William Shakespeare, é narrada a história de Otelo, general mouro a serviço do reino de Veneza. Na trama, Iago - alferes veneziano, afirma que as relações humanas, em sua gênese, são dotadas de ações prejudiciais à harmonia coletiva, mecanismo utilizado pelo autor para exaltar o teor retrógrado da sociedade. Paralelamente, a desvalorização da arte urbana no Brasil também é um retrocesso para o cenário brasileiro. Nesse ínterim, entende-se as concepções arcaicas e preconceituosas sobre o tema e a inoperância do estado como causas do obstáculo.

De início, é lícito pontuar o elitismo da arte e a estigmatização das representações urbanas como potencializadores do entrave. Isso porque, embora a arte seja uma expressão de como a realidade é vista, a tendência de exaltar apenas modelos arcaicos que, em alguns casos já não mais refletem a sociedade vigente, dificulta a aceitação e valorização da arte urbana no país. À luz dessa perspectiva, de acordo com Edmund Burke, filósofo irlandês, é impossível desfrutar dos benefícios do presente quando o passado é a intereza do indivíduo. Nessa narrativa, o enaltecimento de perfomances urbanas é inexistente graças à limitação imposta que qualifica tais formas de arte como vandalismo. Desse modo, é inadmissível que manifestações artísticas de cunho urbano ainda sejam inferiorizadas em dentrimento da existência de pensamentos intolerantes que privilegiam uma única forma de expressão como correta.

Outrossim, é válido ressaltar o descaso do estado como agente que alastra as consequências da não valorização da arte urbana no país. Sob essa ótica, segundo Abraham Lincoln, 16º presidente dos Estados Unidos, uma nação jamais atingirá equilíbrio total enquanto houver segregação entre o corpo social. Nesse contexto, ao deixar de promover e democratizar a arte urbana, o sentimento de aversão a esse tipo de arte passa a ser recorrente na população, uma vez que é ilógico apreciar algo do qual não se tem conhecimento. Dessa maneira, é revoltante que o Estado seja responsável por impedir uma possível evolução racional da coletividade ao ausentar de reconhecer a legitimidade da arte urbana como forma de posicionamento.