Os desafios para democratizar o acesso à cultura
Enviada em 30/08/2019
“Alô Foucault. Cê quer saber o que é loucura? É ver Hobsbawn na mão dos boy. Maquiável nessa leitura”. Nesse trecho da música “Duas de cinco”, do cantor Criolo, ele revela que o acesso à cultura e educação estão ligadas às condições socioeconômicas de alguém no Brasil. Mas também, a letra sugere que há um controle do conhecimento por um grupo privilégiado em detrimento dos desfavorecidos, no intuito de impedir sua ascensão social. Por isso, a democratização do saber envolve questões de desigualdade e dominação.
Diante dessa abordagem, o grau de proximidade com a cultura, seja na literatura, artes plásticas e música erudita, aponta a classe social a qual o indivíduo pertence. Nesse contexto, o filme “Que horas ela volta?” exibe o contraste entre uma estudante, filha de uma empregada doméstica, e a família proprietária da casa, cujo benefício de pertencerem a uma camada elevada na sociedade lhes proporcionaram conforto e contato com a educação. Desse modo, é notório na película que o cotidiano de um trabalhador, de esforços físicos extenuantes e longa carga horária, dificulta o acesso dele à cultura. Por outro lado, quem possui ócio e melhor renda obtém facilidade para consumi-lá.
Nesse viés, a detenção das manifestações culturais também é uma ferramenta de manutenção do poder usada por grupos hegemônicos. Nesse aspecto, o romance distópico “Admirável Mundo Novo”, do autor Aldous Huxley, narra uma sociedade baseada em castas, em que as inferiores eram confinadas ao trabalho, impossibilitadas de acessarem qualquer produção intelectual, a fim de evitar questionamentos sobre o meio e tal sistema. Além da ficção, o filósofo Michel Foucault define que as relações de poder na sociedade são invisíveis e rodeiam as conexões humanas. Sendo assim, a cultura pode representar um aparato de prestígio social de um indivíduo e evidenciar a desigualdade existente.
Perante o exposto, a segregação socioeconômica restringe a cultura somente a alguns e a sua difusão promove a indagação sobre as estruturas na sociedade. Para isso, o Ministério da Educação deve criar um projeto, com auxílio financeiro de empresas privadas, que permita quem está empregado ter tempo dentro do seu expediente para usufruir no teatro, cinema, bibliotecas e parques públicos, e remunerar esse tempo utilizado. Além disso, para jovens de baixa renda e pessoas fora do mercado de trabalho, é preciso haver gratuidade na entrada de instituições culturais, como museus e galerias de arte, e também redução especial no preço da compra de livros, custeada com um fundo público. Somente com a diminuição da exclusão social, a democratização da cultura será tangível.