Os desafios para democratizar o acesso à cultura

Enviada em 04/11/2019

De acordo com o artista Ferreira Gullar, “A arte existe pois só a vida não basta”. Sob essa perspectiva, operando como uma ferramenta de lazer, e assim otimizando a vida de seus telespectadores, o cinema mostra-se uma modalidade artística difundida no Brasil. Entretanto, o acesso a essa atividade não se realiza de modo democrático, uma vez que excluem-se deficientes e indivíduos de baixa renda. Dessa forma, vê-se necessário analisar o despreparo técnico e o segregacionismo econômico vinculado às salas de cinema no país.

Em princípio, segundo o filósofo contratualista John Locke, um dos deveres do Estado é garantir a igualdade no tratamento e nas oportunidades ofertadas aos governados. Contudo, no que tange ao aproveitamento de atividades culturais como o cinema, indivíduos com deficiências visuais ou auditivas encontram-se em uma situação de descaso social. Nesse viés, com sentidos limitados, eles têm suas opções cinematográficas reduzidas - visto que os filmes, em sua maioria, não apresentam recursos inclusivos, como a descrição audível das cenas ou intérpretes das falas em linguagem de sinais. Logo, a parceria do Estado brasileiro com as redes de cinema que trabalham no país visando garantir a igualdade no acesso e aproveitamento de deficientes a essa ferramenta de lazer, é essencial.

Outrossim, discute-se a marginalização de pessoas com baixa renda no ambiente supracitado. Desse modo, análogo ao cenário de Apartheid vivenciado na África do Sul, no qual uma minoria era excluída do convívio em ambientes de prestígio, aqueles que recebem baixas remunerações se fazem ausentes em locais de atividades artísticas, como a cinematográficas. Assim, devido aos preços incoerentes e localizações afastadas de regiões pobres, o cinema tornou-se uma modalidade elitista. Por conseguinte, disponibilizar a exibição de filmes de maneira economicamente acessível é dever do corpo social.

Portanto, cabe à Agência Nacional do Cinema, em parceria com empresas de tecnologia, desenvolver um aplicativo que forneça a descrição em áudio dos filmes em exibição, além de impor às produtoras cinematográficas nacionais a obrigatoriedade de intérpretes das falas durante as tramas, de modo a otimizar a experiência de cidadão surdos ou cegos nos cinemas. Ademais,cabe às escolas, em parceria com ONG’s de apoio a comunidades carentes, promover sessões de cinema a pais e alunos de regiões pobres, dentro das próprias instituições de ensino. Feito isso, será possível democratizar o acesso aos cinemas - e consequentemente ao lazer, com proposto por Ferreira Gullar - no Brasil.