Os desafios para democratizar o acesso à cultura
Enviada em 05/11/2019
Na obra “A rosa púrpura do Cairo”, a protagonista projetava-se em seu filme preferido para fugir de suas mazelas diárias. Por isso, ela passou a viver como uma das personagens do enredo. Entretanto, o caráter elitista do cinema atual impede que parte dos brasileiros tenham acesso a filmes e possam idealizar o cotidiano, como a mulher da ficção. Cabe analisar, então, como a desigualdade social e o descaso governamental intensificam essa questão, a fim de encontrar formas de democratizar a arte cinematográfica.
Antes de tudo, é preciso entender o papel da discrepância socioeconômica em manter o cinema elitista. Acerca disso, o sociólogo Pierre Bordieu afirmou que o acesso à cultura acompanha a renda do indivíduo, o que ele chamou de violência simbólica. Nesse sentido, é notório que a extrema disparidade social é um empecilho na democratização das películas, visto que, de acordo com o Índice de Gini, o Brasil é o oitavo país mais desigual do mundo. Consequentemente, as classes mais baixas acreditam que as produções cinematográficas não são destinadas a elas, e o entretenimento torna-se supérfluo em meio às necessidades básicas. Com isso, segundo observou Bordieu, é aviltante que o poder econômico defina a conduta das pessoas.
Ademais, a falta de incentivo estatal dificulta a ampliação do alcance das telas. A esse respeito, o Ministério da Cultura foi criado pelo presidente Sarney em 1985, mas foi extinto em 2016. Isso evidencia não só a demora em por a arte em pauta, mas também o atual descaso a ela, haja vista a exclusão da pasta. Nesse cenário, se o Governo não estimula o acesso à cultura, a população não saberá valorizá-la. Com efeito, o poder de entretenimento e de formação de princípios do cinema, devido à apresentação de realidades diversas, uma vez negligenciado, desenvolve uma sociedade acrítica e incapaz de entender a importância da filmografia.
Torna-se evidente, portanto, que a democratização do cinema encontra obstáculos financeiros e governamentais. Por isso, o Ministério da Cidadania, atual pasta responsável pela cultura, deve proporcionar o acesso a essa arte pelas classes mais baixas, por meio de um programa de auxílio financeiro. Esse projeto deve funcionar semelhante ao “ID Jovem”, de maneira que algumas cadeiras das salas de cinemas sejam destinadas à entrada gratuita ou ao pagamento parcial, conforme a renda do auxiliado. Com essa medida, a população mais pobre será capaz de assistir às produções cinematográficas. Além disso, o Governo deve criar propagandas que incentivem o consumos de filmes. Assim, os brasileiros serão entusiastas do cinema, tanto quanto a protagonista da obra.