Os desafios para democratizar o acesso à cultura

Enviada em 16/12/2019

No século XVIII,o iluminista Voltaire,em ”Cândido ou o Otimismo”,promovera profunda ruptura com a filosofia romântica de Leibniz ao ironizar a compreensão de que se vivia no melhor dos mundos possíveis.Contemporaneamente,o complexo paradigma de como democratizar o acesso ao cinema no Brasil parece definitivamente legitimar as ideias protagonizadas pelo pensador francês.Nesse contexto,tal problemática constrói-se como subproduto da negligência estatal e inércia social.

Em uma primeira perspectiva,as dificuldades de equidade em relação à cultura cinematográfica na sociedade brasileira erguem-se como uma realidade em decorrência da inabilidade governamental.Isso porque o Estado secundariza causas sociais que não se mostrem úteis ao fisiologismo de sua agenda,visto que,acastelado pelos seus governantes,ocorre a priorização de gastos em benefício próprio,como salários exorbitantes,em detrimento do investimento na redução de desigualdades sociais no que se refere ao acesso ao cinema,haja vista a frequente ausência de infraestrutura,segurança e condições propícias ao desenvolvimento de atividades culturais nas periferias e locais distantes de centros urbanos.Como consequência, os direitos sociais, relacionados ao amplo acesso à cultura e presentes na Constituição Federal de 1988,são deslegitimados.

Ademais,convém ressaltar que os entraves na igualdade de oportunidades de acessibilidade ao cinema brasileiro arquitetam-se como expressão da inação social.Esse quadro sociológico instaura-se devido ao resultado de expressiva parcela populacional omitir-se diante de problemas sociais,já que considera a inércia preferível a mobilizar-se e pressionar o Governo por mudanças,o que contribui para a manutenção de uma máquina pública inerte quanto à causa.Essa afirmativa possui estreito relacionamento com a premissa defendida por Félix Guattari e Gilles Deleuze,filósofos que refletem em ”Mil Platôs”,o fato da contemporaneidade produzir corpos dóceis,com o intuito de torná-los apáticos e,consequentemente,compactuarem com a realidade existente.Desse modo, a coletividade não se manifesta a favor da população excluída culturalmente, e essa minoria permanece negligenciada.

Portanto, a displicência do Estado e a compactuação social instauram os desafios da construção de um cinema democratizado no Brasil.Assim,o Poder Executivo Federal,sob a forma de Ministério da Educação e Cultura,deve promover políticas de inclusão social,por meio de incentivos a empresas privadas que,em contrapartida,invistam na ampliação e manutenção do cinema em regiões distantes,as quais funcionem em período integral,com a finalidade de garantir o pleno exercício da cidadania e garantias constitucionais individuais.Dessa forma,os cidadãos seriam dignificados e a filosofia romântica de Leibniz poderia,enfim,tornar-se realidade.