Os efeitos da falta do autoconhecimento na era digital
Enviada em 30/04/2020
A obra “admirável mundo novo”, de Aldous Huxley, apresenta ao leitor um mundo distópico em que a vida de todos é controlada pelo governo e por remédios que influenciam o humor. Nesse passo, os jovens da ficção são encorajados a criar um autoconhecimento falso na medida em que seus sentimentos são manipulados por químicos. Analogamente, a falta de autoconhecimento no mundo real ocorre, em certa medida, em decorrência do próprio contexto digital em que a sociedade vive. Além disso, seus efeitos são perigosos e devem ser estudados, como é o caso da facilidade de influenciar as pessoas nessa condição, e a superficialidade criada pela comercialização do estético.
Em princípio, a pessoa que não possui bom autoconhecimento na era digital fica sujeita a uma exposição maior ao controle comportamental, seja no âmbito comercial, seja no âmbito político. Isso porque os algorítimos, mecanismos computacionais que visam categorizar cada tipo de pessoa de forma automática e restritiva, reconhecem certas opiniões e gostos do usuário digital, e bombardeiam suas páginas com propagandas e posts que magnificam o que já estava estabelecido. Um exemplo disso foi a investigação, em 2019, da empresa Facebook, que era acusada de usar algorítimos para potencializar a lucratividade e efetividade de seus anúncios. Destarte, a discussão se aprofunda quando esse mecanismo também reforça opiniões políticas de apenas um espectro, formando pessoas que, sem autoconhecimento, sofrem com opiniões extremas. Dessa forma, o controle dos usuários no meio digital apresenta riscos que devem ser ponderados em busca de um mundo melhor.
Por outro lado, a falta de autoconhecimento leva os usuários a uma falsa impressão da realidade criada pela comercialização do que é estético. Uma medida que buscou conter essa dinâmica foi a rede social “instagram” remover a visualização da quantidade de “gosteis” em cada foto dos usuários. Tal medida, de forma paradoxal, auxilia a transparência dos usuários ao mesmo tempo que impede o acesso a determinada informação. Isso porque ao visualizar fotos com grandes quantidades de curtidas, as pessoas, já em um estado de baixo autoconhecimento, são levadas a acreditar que são inferiores, mesmo que a realidade apresentada na foto seja apenas uma ilusão criada pelo mercado da estética.
Em conclusão, a falta de autoconhecimento apresenta problemas graves que devem ser combatidos. Com isso, é importante que o Ministério da Cidadania, em parceria com o Ministério da Educação, efetue uma proposta legislativa no congresso que, buscando defender a dignidade da pessoa humana, regule o uso de algorítimos no meio digital para que possa haver mais liberdade individual dos usuários. Assim, a ficção de admirável mundo novo se afastará da realidade.