Os efeitos da falta do autoconhecimento na era digital

Enviada em 02/05/2020

O filósofo Sócrates ficou conhecido por pregar a máxima “conhece-te a ti mesmo”. Seguindo essa premissa, ele aplicava a maiêutica, método que consistia em fazer os próprios indivíduos buscarem as respostas que procuravam através de questionamentos, o que era um grande exercício de autoconhecimento. Depois de séculos, nos dias de hoje, tal comportamento está obsoleto, visto que a internet oferece grande parte das respostas que as pessoas buscam. No entanto, a submissão à ferramenta digital gera efeitos preocupantes como a manipulação e o surgimento de doenças mentais, sendo, por isso, imprescindível o resgate dos princípios socráticos.

A princípio, é preciso destacar que a lacuna deixada pela falta de autoconhecimento é preenchida pela manipulação midiática. Nesse sentido, o conceito de Indústria Cultural, do sociólogo Adorno, aponta que a mídia impõe maneiras de agir que moldam o comportamento de massa. Por conseguinte, os indivíduos passam a fazer exatamente o que as grandes indústrias ditam, como comprar itens sem refletir sobre a real necessidade de tê-los ou consumir produtos apenas porque estão na moda. Depreende-se, então, que a autonomia individual cede lugar aos interesses mercadológicos, o que torna necessário uma intervenção educacional que estimule os jovens a se conhecerem e a entenderem seus desejos para não se tornarem alvos fáceis da manipulação.

Somado a isso, convém observar que a exposição nas redes sociais contribui para a falta de conhecimento em si mesmo. Com efeito, o escritor Machado de Assis, em seu conto “O espelho”, expõe o conceito de “alma externa”, que é a persona que o ser humano cria para ser perante os demais. Dessa forma, a exposição dessa “alma externa” na internet faz os indivíduos se perderem nas representações que eles criam, o que traz como consequência sentimentos de angústia e quadros graves de ansiedade. Tal aspecto é comprovado pela Organização Mundial de Saúde, que já classificou os tempos atuais como a época de maior incidência de patologias psicológicas. Infere-se, pois, que o autoconhecimento é uma forma eficiente de se proteger contra a exposição nociva das redes.

Fica claro, portanto, que existem efeitos negativos da falta de conhecimento em si mesmo. Por conta disso, o Ministério da Educação deve incluir um projeto psicopedagógico na grade curricular que desenvolva a autonomia das crianças. Isso pode ser feito mediante oficinas contendo dinâmicas de grupo conduzidas por psicólogos que incitem os estudantes a descobrirem sua personalidade e instiguem o senso crítico deles, com vistas a desenvolver o conhecimento intrínseco de cada um e a torná-los autossuficientes em suas próprias ações. Assim, os ideais pregados por Sócrates serão resgatados e a consciência interior não será negligenciada.