Os efeitos da falta do autoconhecimento na era digital
Enviada em 05/05/2020
A série televisiva norte-americana “Black Mirror” retrata um futuro distópico, no qual há uma diversidade de problemas cotidianos ocasionados pelo crescente desenvolvimento tecnológico. De maneira análoga à realidade hodierna, é nítido que distúrbios psicológicos e emocionais fazem-se cada vez mais presentes, devido à massiva interferência da tecnologia nas relações afetivas. Com efeito, a falta do autoconhecimento na era digital torna-se uma problemática contemporânea que gera efeitos maléficos para a sociedade, o que torna mister analisar a magnitude desse quadro em âmbito global.
Em primeiro plano, é imperativo pontuar que a superficialidade das relações atuais agrava esse cenário. Segundo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, vive-se na era denominada “modernidade líquida”, em que predominam a fluidez e a efemeridade dos valores, haja vista que a dinâmica da pós-modernidade é marcada pela primazia da comunicação em redes imateriais. Por consequência, tal fator gera uma constante instabilidade afetiva e emocional nos indivíduos, uma vez que, imersos no meio virtual, encontram-se cada vez mais inseguros de si próprios. Dessa maneira, percebe-se que a falta do autoconhecimento na era digital prejudica a formação da construção identitária dos cidadãos, devido à falsa necessidade de adequação a um padrão de comportamento preestabelecido.
Outrossim, é válido averiguar que a noção de individualidade tem sido deturpada no mundo hodierno pela ausência do autoconhecimento. Nesse viés, a manipulação da opinião pública, por meio da padronização ideológica, adulterou a formação do senso crítico, o que fomenta a diminuição da variedade de posicionamentos sociopolíticos no espaço cibernético. No entanto, tal fenômeno reflete um paradoxo comunicativo da esfera digital contemporânea, devido à existência de uma diversidade de fontes informacionais na internet. Logo, o aparelhamento das visões de mundo constitui um efeito danoso para o desenvolvimento intelectual dos indivíduos.
Em síntese, a observação crítica dos fatos supracitados revela uma urgência em reverter o panorama vigente. Portanto, cabe ao Ministério da Educação, por meio de verbas públicas, implementar uma disciplina específica nas escolas, voltada para a ética e a cidadania, a partir de aulas, palestras e debates educativos, ministrados por profissionais da educação e da tecnologia, que incentivem a autonomia intelectual dos cidadãos desde cedo, com o objetivo de fomentar o senso crítico e a individualidade. Ademais, cabe ao Ministério da Saúde, mediante incentivos fiscais, realizar campanhas de conscientização social quanto aos problemas psíquicos e emocionais gerados pelo mau uso do espaço virtual, de modo a orientar os indivíduos quanto à importância de preservar a saúde afetiva. Assim, será possível estimular o autoconhecimento na era digital, bem como torná-lo mais promissor.