Os efeitos da falta do autoconhecimento na era digital
Enviada em 05/05/2020
Para explicar sua teoria sobre o mundo das ideias, Platão usou o conhecido"mito da Caverna", no qual os indivíduos - presos na mitológica cripta - conheciam o mundo apenas como sombras que se projetavam nas paredes iluminadas por uma fogueira. Na era digital, o mundo ilusório é criado nas redes sociais, onde felicidade, beleza e sucesso são exaltados como padrão de vida das pessoas. Indubitavelmente, esse padrão inalcançável induz os indivíduos a tentarem assumir para si os comportamentos que vêem nas telas de seus “smartphones”, em detrimento de buscarem o autoconhecimento e a autoestima. Nesse contexto, faz-se preciso discutir os efeitos nocivos da falta do autoconhecimento na era digital sobre a saúde mental e a autodeterminação dos brasileiros.
Inicialmente, cabe ressaltar que a falta do autoconhecimento aliada à vida perfeita inalcançável propagada nas redes sociais causam sofrimento psicológico às pessoas. Isso corre porque o indivíduo passa a tentar reproduzir, na sua vida real, o que vê no mundo virtual, deixando de refletir sobre as próprias aspirações e propósitos. Corroborando esse cenário, a escritora zen-budista brasileira, monja Cohen, destaca sua preocupação com o modo de vida hiperconectado da era digital, que faz com que as pessoas não reservem tempo para o silêncio, a reflexão e a conversa calma e demorada com seus familiares - atitudes, segundo ela, essenciais para o autoconhecimento e o controle da ansiedade.
Em segundo lugar, deve-se destacar que a falta do autoconhecimento torna as pessoas vulneráveis à manipulação do seu comportamento. Nesse aspecto, como ficou claro no depoimento do CEO do Facebook, Mark Zuckemberg, ao senado americano, em 2018, as grandes empresas da internet e os governos têm se aproveitado dos dados de navegação dos usuários para induzirem que consumam produtos ou adiram a a discursos políticos. Nesse âmbito, pessoas que abdicam de refletir sobre as próprias crenças e convicções tendem a seguir a multidão, no que a psicologia caracteriza como “comportamento de manada”, ou seja, aderindo àquilo que aparece como padrão, massivamente visto na internet.
Diante do exposto, para combater os efeitos da falta do autoconhecimento na era digital na sociedade brasileira, o Ministério da Educação deve aumentar a carga horária de disciplinas que promovem a reflexão e o autoconhecimento - como filosofia, artes e educação física - no sistema de ensino nacional, por meio de reformulação curricular que garanta que essas disciplinas componham um terço das aulas ministradas no ensino fundamental brasileiro. Assim, o tempo diário para reflexão e autoconhecimento, defendido pela monja Cohen, passará a fazer parte da rotina dos educandos brasileiros, impactando sistemicamente a sociedade, em médio e longo prazos.