Os efeitos da falta do autoconhecimento na era digital

Enviada em 10/05/2020

O filósofo grego Sócrates acreditava que o autoconhecimento era a chave para o ser humano desenvolver o controle da sua vontade e o equilíbrio das virtudes para, em última instância, alcançar a felicidade. No entanto, observa-se que, na nova era digital, há uma carência de conhecimento por parte do indivíduo acerca da sua própria personalidade e características, fato advindo da insuficiente educação emocional que ele recebe e que abre portas para a busca danosa pela aceitação de outrem e para a exploração de suas informações em prol dos interesses de grandes corporações capitalistas.

Primeiramente, verifica-se que a pouca ciência sobre o próprio perfil de gostos e caracteres pessoais pode gerar uma carência emocional danosa que é intensificada pelas redes sociais. Pedro Calabrez, neurocientista, afirma que, ao receber curtidas em uma foto, há a liberação de dopamina, o hormônio do prazer, no cérebro de uma pessoa. Logo, percebe-se que tal alegria efêmera possui a chance de ser vista pelo indivíduo como algo que pode preencher o vazio emocional dele, levando-o a se entregar à ela e a desenvolver uma necessidade patológica por reconhecimento e aceitação de terceiros, em uma tentativa de sanar uma falta de autovalorização que somente ele pode resolver.

Ademais, é possível identificar que o insuficiente conhecimento acerca das próprias necessidades leva o cidadão a ser manipulado enquanto consumidor. Com o advento da ciência de dados, toda a abundância de informações produzidas pelos usuários da internet passou a ser material para que algoritmos e sistemas de recomendação atuassem delineando perfis cada vez mais precisos dos clientes, abrindo possibilidades para a criação de desejos que induzem ao consumismo. Nesse sentido, pessoas pouco conscientes de suas reais necessidades de compra acabam sendo facilmente fisgadas por esses mecanismos, resultando em gastos desnecessários, endividamento e até mesmo na objetificação das suas relações sociais, tal como apontado pelo filósofo Zygmunt Bauman no livro “Amor líquido”.

Dessa maneira, considerando os efeitos danosos provocados pelo pouco autoconhecimento, são necessárias medidas para a amenização das suas causas. Bom seria se o poder público, por meio de parcerias com Organizações Não Governamentais (ONGs), instituísse programas educacionais que alertassem a população acerca dos problemas gerados pela falta de conhecimento próprio. Essas campanhas deveriam ser divulgadas na televisão e no meio virtual, utilizando o formato de debates que trouxessem profissionais para discutirem sobre o tema. Assim, estaria-se fazendo ações relevantes para que os cidadãos sejam estimulados a se autoconhecerem e, tal como frisado por Sócrates, utilizarem isso como meio para atingirem uma vida equilibrada e feliz.