Os efeitos da falta do autoconhecimento na era digital

Enviada em 07/05/2020

Em um artigo publicado em 2018 no site do jornal Gazeta do Povo o filósofo Felipe Pondé afirmou “o algoritmo sabe mais de mim do que eu mesmo”. Em outros termos, o excerto de Pondé reflete uma realidade da hodierna Era Digital, na qual todas as informações produzidas pelo usuário durante sua atividade online em plataformas digitais – Facebook, Amazon – são colhidas e monitoradas demasiadamente por algoritmos de empresas e do governo. De modo que o ciberespaço detém mais informações sobre o indivíduo, que o próprio torna-se inconsciente de si. A reflexão em questão evidencia um dos efeitos da falta de autoconhecimento na era digital, margem para outros como o “capitalismo da vigilância” e a alienação à opinião alheia.

Primordialmente, é imperioso destacar o “capitalismo de vigilância” termo usado e popularizado pela professora emérita de Harvard Shoshana Zuboff, o qual denota um novo gênero de capitalismo que monetiza dados adquiridos por vigilância. Em síntese, o algoritmo constrói um contingente de informações do usuário a partir de coleta de “rastros” durante a atividade online, dessa forma moldando o indivíduo e personalizando propagandas. Tal operação se configura como invasão de privacidade, em que o usuário está inconsciente sobre a alienação que é submetido.

Outrossim, a alienação à opinião alheia em redes sociais também é um dos efeitos no tangentes à falta de autoconhecimento do indivíduo. Segundo a teoria do psiquiatra Carl Jung – precursor da psicologia analítica, o ser humano aprende sobre quem ele é a partir da própria observação e também dos outros. Atualmente, com a auto exposição constante em redes sociais, o indivíduo busca atrair atenção para si como forma de suprir suas necessidades afetivas, o que só ocorre se ele for autoconsciente, de acordo com a teoria analítica.

Portanto, é mister que o Estado tome providências para superar o desafio e melhorar o quadro atual. Para mitigar os efeitos da falta de autoconhecimento na era digital, urge que o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) garanta a segurança cibernética, por meio do exercício da Lei n° 12.965 que assegura a tutela da privacidade e da proteção de dados pessoais, além de exigir o consentimento livre, expresso e informado do usuário para a utilização de seus dados pessoais. Além disso, o Ministério da Saúde deve democratizar o acesso aos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), a nível municipal, estadual e federal, para que todos possam ter acesso facilitado à psicoterapia, dessa forma auxiliar na promoção do autoconhecimento dos cidadãos. Nessa conjuntura, inverter a situação atual em que os algoritmos conhecem mais os cidadãos do que os próprios.