Os efeitos da falta do autoconhecimento na era digital

Enviada em 06/07/2020

Na Grécia Antiga, o filósofo ateniense Sócrates ficou conhecido pelo aforismo “Conhece-te a ti mesmo”, que fazia parte do método maiêutico (busca das próprias verdades), com o intuito de despertar o autoconhecimento para uma vida melhor. Hodiernamente, tal ideia é imprescindível, haja visto que os meios digitais trouxeram uma maior necessidade de conhecimento de si promovido pelo excesso de exposição. Nesse sentido, os efeitos do ineficaz autoconhecimento se evidenciam pela suscetibilidade de manipulação ideológica dos indivíduos por empresas digitais e pelo excesso de autocobrança pelas ilusões das imagens das vidas expostas nas redes.

Mormente, é necessário analisar como a falta de autoconhecimento contribui para a manipulação das pessoas por terceiros. De acordo com o sociólogo Manuel Castells, em seu livro intitulado “Sociedade em Redes”, vive-se em uma era em que tudo está interligado pela internet, de modo a não haver fronteiras globais para os fluxos informacionais e ideológicos que surgem por meio da cibercultura. Tal ideia de Castells contribui para o debate, na medida em que evidencia a potencial influência que o meio cibernético possui perante os indivíduos.Nesse sentido, há a promoção de mudanças comportamentais e sociais nas pessoas sem autoconhecimento. Assim, tal concepção é explorada pelo comércio, que passa a capturar os dados, pela internet, dos internautas. Diante disso, as necessidades subjetivas são capturadas para  promover estratégias a fim de estimular o consumo.

Ademais, a alienação de si mesmo faz com que haja excesso de autocobrança perante a vida moderna ilusória mostradas nas redes sociais. Consoante Guy Debord, a modernidade vive uma época de “Sociedade do Espetáculo”, em que as relações sociais são mediadas pelas imagens ilusórias, propiciadas pelas redes sociais, de vidas perfeitas. Nessa perspectiva, os seres passam a guiar suas realidades ao redor de vidas inventadas pela internet, de modo a exigir demasiadamente de si um ideal de perfeição. Com isso, surge a necessidade em ser notado, a grande autocobrança e as frustrações advindas do processo de tentar se igualar aos outros. Tal ideia vai contra o método maiêutico empregado por Sócrates, para descobrir as próprias verdades, sem se comparar aos outros indivíduos.

Destarte, medidas são necessárias para que o autoconhecimento se intensifique. O Ministério da Educação deve promover, por meio da inserção do objetivo na base de Diretrizes Orçamentárias, palestras e oficinas nas escolas com filósofos e psicólogos sobre a importância do autoconhecimento na era digital, de modo a estimular o conhecimento crítico sobre o tema com debates sobre situações cotidianas de manipulação ideológica. Isso deve ser feito com o objetivo de ampliar a consciência social e, assim, estimular a aceitação de si mesmo, como pregava o filósofo Sócrates.