Os efeitos da falta do autoconhecimento na era digital

Enviada em 26/05/2020

Produzido no final do século XIX, o autorretrato do pintor Van Gogh sintetiza uma prática que ganhou popularidade durante a Idade Média. Para além das questões estéticas, registrar-se simboliza a tentativa de “construção” do eu baseada na autopercepção. Mais de um século depois, não há dúvidas: tal busca é, hoje, mediada pela tecnologia. Nota-se, no entanto, que a aproximação das sociedades com os aparatos tecnológicos pode surtir efeitos contrários quando há falta de autoconhecimento por parte dos indivíduos, destacando-se a perda da identidade e a necessidade de aprovação exterior.

É válido ressaltar, de início, que a internet potencializa as consequências da ausência de autoconhecimento dos sujeitos, mas não é capaz de originá-la. Quanto a isso, o filósofo Byung-Chul Han afirma que é incoerente culpabilizar a ferramenta e isentar a responsabilidade do usuário. Dessa maneira, percebe-se que tal agravamento ocorre porque, diante das inúmeras possibilidades do mundo virtual, ao não entender suas preferências, o indivíduo torna-se mais vulnerável à manipulação. Essa fragilização da identidade é potencialmente perigosa, pois considerando que os seres humanos são, em essência, propícios a viver em sociedade - conforme defendido pelo filósofo Aristóteles - a distorção de seus valores também afeta a forma como administra suas relações interpessoais.

Convém pontuar, ainda, que a ausência do autoentendimento é o cerne de outros problemas na sociedade hodierna. Sob a ótica do filósofo Zygmund Bauman, o desconhecimento das individualidades fomenta a necessidade que as pessoas apresentam de serem aplaudidas pelo corpo social. Nesse sentido, é possível afirmar que as redes sociais desempenham o papel destinado aos autorretratos de outrora, uma vez os cidadãos podem moldar sua autopercepção de acordo com as reações de outros usuários às fotos publicadas. Essa dificuldade de autoafirmação, fruto da insegurança de si mesmo, é apontada como um dos fatores que contribuem para que o Brasil apresente a maior taxa de transtorno de ansiedade no mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde.

Depreende-se, portanto, que os efeitos da falta de autoconhecimento para a sociedade imersa na era digital são latentes. A fim de incentivar o indivíduo a compreender suas habilidades e limitações, cabe aos centros educacionais realizarem atividades tendo em vista a inteligência socioemocional, como jogos interativos entre os discentes. Além disso, os conselhos estaduais de psicologia e as secretarias de saúde dos municípios devem criar aplicativos de celular, nos quais serão disponibilizados formulários e, a depender das respostas dos sujeitos às perguntas, orientações personalizadas poderão ser fornecidas para proporcionar o aprimoramento da autopercepção dos usuários. Espera-se, assim, que a busca por autoconhecimento, que remonta a idade média, possa ser, enfim, alcançada.