Os efeitos da falta do autoconhecimento na era digital

Enviada em 24/05/2020

“O meu nome é Severino, não tenho outro de pia.” Esse fragmento pertence a obra “Morte e Vida Severina” composta por João Cabral de Melo Neto, a qual possui uma narrativa centrada nos Severinos,ou seja, indivíduos que possuem traços mentais e físicos partilhados com outros,o que não constitui individualidade. Apesar do lapso literário e temporal, torna-se cada vez mais evidente na Era Pós- Moderna a realidade da falta de autoconhecimento, tal qual relatado na produção Modernista, que hoje é impulsionada, sobretudo, pelas mídias sociais. Sob esse viés, é fundamental analisar os efeitos da falta de conhecimento na era digital no que tange à esfera identitária e psíquica dos seres.

De início, é primordial entender que a alienação acerca do autoconhecimento,a qual é agravada pelos mecanismos da Era Técnico-Científica-Informacional, colabora para a não individualização das vontades e da personalidade do ser. Ao tomar como base o pensamento de Theodor Adorno e de Max Horkheimer, filósofos da Escola de Frankfurt, a partir do conceito de “Indústria Cultural”, que consiste na massificação das preferências humanas, nota-se que os gostos artísticos, os pensamentos sociais e as condutas comportamentais são homogeneizadas pelos meios digitais, tal qual a mídia e as redes sociais. Diante disso, é perceptível que a falta de autoconhecimento torna as pessoas mais propícias à influência do fenômeno da cultura de massa, o que gera, muitos vezes, prejuízos identitários.

Além disso, é relevante compreender que a falta de autoconhecimento torna-se danosa no âmbito psicológico, devido a mecanismos de comparação crescentes na era digital. De acordo com a ótica do psicólogo Jules de Gaultier, existe um efeito mental, o qual ele denomina de “Bouvarismo”, que se fundamenta na necessidade de tornar-se outro indivíduo. Diante dessa cosmovisão, é notório que a carência relativa ao autoconhecimento colabora com a dependência mimética de outrem, tal fenômeno é agravado pela exposição exacerbada de vidas idealizadas nas mídias sociais, como no Instagram no e Twitter, o que proporciona sensações de frustração por não conseguir alcançar as expectativas  estéticas e comportamentais ilusórias propagadas nas redes sociais.

Logo, pode-se inferir que a  falta de autoconhecimento na era digital contribui para efeitos danosos na esfera identitária e psíquica. Diante disso, urge que o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária e o Ministério da Saúde,que zela pela sanidade mental,realizem transmissões de conteúdos acerca do autoconhecimento nas plataformas tecnológicas, por meio da interação de psicólogos com influenciadores digitais, a fim de iniciar os cidadãos em técnicas de autoanálise e de compartilhar a realidade de pessoas públicas, uma vez que essa é diferente da idealização exposta com máscaras digitais. Afinal, é chegada a hora da singularidade, afastando-se da moral genérica dos Severinos.