Os efeitos da falta do autoconhecimento na era digital
Enviada em 23/05/2020
Segundo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, a felicidade pessoal é alcançada por dois valores, sendo esses indissociáveis: a segurança e a liberdade. Sob essa ótica, no século XXI, período dominado pela tecnologia em todos os âmbitos, esses princípios estão em defasagem. Assim, mesmo diante de tanta informação, uma grande parcela da sociedade não possui de fato conhecimento próprio, e com isso, existe maior possibilidade de manipulação midiática e efeitos na saúde mental do indivíduo.
Em primeira análise, os meios de comunicação de massa exercem grande influência sob o público, e, consequentemente, sob o autoconhecimento desse. Nessa perspectiva, a mídia pode ser considerada uma ´´instituição de sequestro´´, sendo essa definida por Michel Foucault como instrumento de dominação, que molda as condutas da audiência, gerando, assim, corpos dóceis, ou seja, pessoas mais fáceis de controlar. Dessa maneira, indivíduos acríticos, produzidos principalmente pelo modelo de educação bancária, -a qual trata os alunos como receptores de conhecimento e não como cidadãos reflexivos- tornam-se mais suscetíveis aos meios de consumo oferecidos pelos meios de comunicação, além dos ideais ´´vendidos´´, a exemplo de padrões estéticos e o consumismo, influenciando-se, assim, socialmente e até politicamente o pensamento do público através da cultura de massa.
Em segunda análise, na era digital, o autorreconhecimento é visto em um número pequeno de pessoas, pois através da tecnologia tenta-se passar uma imagem perfeita, logo, irreal. Então, sem o autorreconhecimento como indivíduo consciente de suas escolhas e críticas, ficando ´´à margem´´ dos posicionamentos sociais e midiáticos, cresce o sentimento de impotência frente aos desafios enfrentados ao longo da vida, aumentando ,assim, os níveis de estresse e as chances do desenvolvimento de ansiedade. Ademais, o processo de autorreconhecimento -seja ele incentivado por educação ou por iniciativa pessoal- é complexo e exige muito esforço próprio, pois, com a devida ação nasce a afirmação dos próprios defeitos e erros, o que, se não realizado com excelência, pode vir a gerar sentimentos de culpa, levando a maiores índices de depressão.
Diante da situação, para a reversão desse quadro urgem medidas como a promoção realizada pelo setor de educação de cada país em conjunção com a Organização das Nações Unidas, a criação de um projeto intitulado ´´O mundo e nós: autoconhecimento´´, através da inclusão de discussões sobre autorreconhecimento promovida através de palestras envolvendo psicólogos e sociólogos em instituições de ensino, e a inclusão de tópicos do tema no currículo escolar , objetivando assim, a criação de uma educação mais democrática e crítica, desde as séries básicas e o gozo da liberdade e segurança relatados por Bauman.