Os efeitos da falta do autoconhecimento na era digital

Enviada em 29/05/2020

Na obra “1984”, de George Orwell, a sociedade da fictícia Oceania, além de ser vigiada, constantemente, pelo “Grande Irmão”, também sofria manipulação por parte do Estado, o qual divulgava, por meio da “teletela”, conteúdos distorcidos da realidade, de acordo com o seu interesse. Saindo da ficção, percebe-se que a “internet”, na era digital, tanto observa o internauta que o “conhece” a ponto de conseguir manipulá-lo. A partir disso, é válido analisar a importância de se autoconhecer na atualidade para evitar a manipulação, bem como possíveis consequências mentais decorrentes da falta de autoconhecimento.

É importante observar, primeiramente, que cada vez mais a sociedade é vigiada e manipulada pelos algoritmos da “internet”, levando-as, principalmente, ao consumismo. Isso porque, seguindo a ideia do Panóptico de Michel Foucault, em “Vigiar e Punir”, a “internet”, nesse sentido, acaba sendo um mecanismo para vigiar, conhecer, e, consequentemente, disciplinar e moldar uma sociedade com base naquilo que é observado. Assim, a falta de autoconhecimento da sociedade atual faz ela se apoiar em um suposto conhecimento que a tecnologia tem de si mesmo, e acaba por se influenciar naquilo que uma máquina lhe propõe. Por exemplo, uma simples notificação pode levar o usuário a achar que, realmente, precisa obter determinado produto ou seguir certo pensamento.

Convém pontuar, ainda, que a carência de autoconhecimento da sociedade atual pode levá-la a desenvolver problemas psicológicos. De acordo com o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, vive-se em uma “Sociedade do Cansaço”, a qual é vítima, não das epidemias infecciosas mais comuns no século passado, mas, sim, das doenças neuronais, mentais, como ansiedade, depressão e síndrome de Burnout. Dessa forma, não conhecer a si mesmo, não saber seus limites, seus verdadeiros ideais e propósitos, pode fazer com que o cidadão se “autoexplore”, como analisado por Han, e desenvolva pro-blemas psicológicos. Assim, é fundamental que a pessoa se conheça e não se deixe ser influenciada pela sociedade atual que busca a perfeição, como se ela existisse, principalmente no meio digital.

Nota-se, então, que o autoconhecimento na era digital é fundamental para o desenvolvimento de uma sociedade mais consciente e saudável mentalmente. Portanto, é fundamental que as escolas, por meio de seus serviços psicopedagógicos, estimule a capacidade de autoconhecimento dos estudantes, os quais serão os cidadãos do futuro. Esse estímulo deve ser feito a partir da realização de trabalhos, em que os estudantes possam expor seus ideais e serem analisados e orientados pelos profissionais da escola, a fim de, cada vez mais o cidadão tenha capacidade de se autoconhecer. Finalmente, com maior autoconhecimento, a pessoa fica menos suscetível à manipulação dos “Grandes Irmãos” de hoje.