Os efeitos da falta do autoconhecimento na era digital
Enviada em 29/05/2020
Na entrada do Oráculo de Delfos, na Grécia Antiga, havia a frase “conhece-te a ti mesmo”. É indubitável a importância do autoconhecimento na formação de cada pessoa como indivíduo autônomo, seguro de si e não manipulável. No entanto, a era digital tem formado cada vez mais seres humanos que por não conhecerem a si mesmos assumem uma identidade idealizada nas redes sociais e se tornam ainda mais sujeitos à manipulação.
Em primeiro lugar, é importante destacar que, de acordo com o que afirmou o filósofo Zygmunt Bauman, a modernidade líquida diluiu a noção de identidade, tornando-a fluida, uma vez que possibilitou a formação da personalidade de maneira mais ativa, indo além de apenas refutar ou apropriar-se de identificações impostas por fatores externos. Esse cenário confere ao indivíduo maior responsabilidade, fazendo do autoconhecimento ainda mais necessário. Contudo, quando alguém não sabe quem é de fato, tende a buscar desesperadamente a aprovação dos outros, e para isso, cria e compartilha nas redes sociais uma idealização de si mesmo, baseada nos comportamentos e estilos que são admirados e massificados na internet, o que termina por extinguir as individualidades.
Além disso, a falta do autoconhecimento gera também cidadãos mais susceptíveis a manipulação, visto que essa beneficia empresas e governos interessados em moldar no indivíduo, o qual é constantemente monitorado, a identidade que mais os convém, assim como a cantora brasileira Pitty expressou em sua música: “Nada é orgânico, é tudo programado […] Pense, fale, compre, beba/ Leia, vote, não se esqueça/ Use, seja, ouça, diga/ Tenha, more, gaste e viva”; fazendo uma analgia entre o ser humano e um robô, um ser controlado por outro de acordo com os interesses deste.
Destarte, é necessário que as pessoas, mas principalmente os jovens, uma vez que já nasceram imersos no mundo digital, sejam conscientizadas sobre a importância do autoconhecimento. Para isso, o Ministério da Educação deveria promover campanhas nas escolas brasileiras com o objetivo de incentivar os adolescentes e jovens a conhecer quem eles são por meio de palestras, que seriam apresentadas por psicólogos, para os alunos do Ensino Fundamental II e do Ensino Médio. Dessa forma, eles se tornariam cidadãos que, por possuírem e reconhecerem sua própria identidade, não sentem extrema necessidade de aprovação externa nem são indivíduos facilmente manipuláveis.