Os efeitos da falta do autoconhecimento na era digital
Enviada em 29/05/2020
Na visão do filósofo Michel Foucault, existem poderes que disciplinam nossos corpos. Seguindo esse raciocínio, observa-se o quanto a sociedade é domada em suas escolhas diárias, a partir do momento que grandes empresas e personalidades ditam o que é necessário e aceitável - deixando de lado as particularidades de cada indivíduo. Nessa perspectiva, o mundo digital propaga a doutrinação do perfil “correto” e abre espaço nas mentes de seus usuários para comparações entre eles e os perfis bem sucedidos, contribuindo para uma possível depressão.
Nesse sentido, recentemente a empresa Instagram - rede social de compartilhamento de fotos e vídeos entre seus utentes - retirou a ferramenta responsável por exibir publicamente a quantidade de “likes” que uma publicação recebeu. Tal decisão deveu-se ao fato de que este recurso se tornou um meio para competições e comparativos entre as pessoas, pois neste mundo virtual já não importa o conteúdo da postagem e sim o alcance que ela venha a ter. Dentro desta realidade, o indivíduo passou a deixar sua própria criatividade, singularidade e autenticidade fora do que compartilha, pois sua intenção é apenas estar incluso nos padrões de sucesso. Tal prática deixa de lado também o conhecimento sobre si mesmo, suas reflexões, opiniões e aflições, resultando no detrimento da personalidade e na formação de um consumidor inerte.
Paralelo a isso, Yuri Busin - psicólogo e doutor em neurociência comportamental - afirma que passar muitas horas navegando na internet pode alterar negativamente o humor e agravar uma depressão. Esta percepção deve-se ao fato de que os usuários, em sua imensa maioria, são bombardeados 24 horas com publicações sobre rotinas perfeitas de uma minoria, gerando neles a busca incansável pelo mesmo patamar de vida destes que não parecem sofrer. Diante disso, pessoas internalizam metas para atingir certo nível de autoaceitação, nas quais o objetivo é se tornar o mais próximo possível daquelas que elas seguem em suas redes sociais, camuflando-se em seus perfis. Com isso, cada vez mais a sociedade ignora ou sufoca seus princípios e dilemas em prol de uma aparência agradável.
Portanto, diante do conhecimento sobre a teoria de Foucault, a sociedade deve se atentar as possíveis manipulações de comportamento e a forte influência vinda dos meios digitais. Nesse intuito, escolas, em parceria com psicólogos e blogueiros, devem levar palestras e rodas de conversa para o ambiente escolar, nas quais abordarão a visão da psicologia sobre a construção do autoconhecimento dentro da era de perfis virtuais. Além disso, haverão relatos contados pelos influenciadores, ali presentes, sobre a realidade vivida por trás das telas. Assim, jovens poderão observar que grande parte da vida virtual é uma ilusão e que precisam conhecer a si mesmos para se protegerem e serem livres.