Os efeitos da falta do autoconhecimento na era digital

Enviada em 28/05/2020

“Conhece-te a ti mesmo” foi a frase aferida pelo filósofo Sócrates. Hodiernamente, tornou-se necessária o retorno desse pensamento socrático dentro do contexto da ausência da reafirmação pessoal diante de uma época focalizada na tecnologia. Essa era digital contempla diversos avanços para o mundo contemporâneo, mas, também, acarreta inseguranças, como as fragilizações nos comportamentos sociais e numerosos casos de criação de identidades falsas.

Mormente, a falta do autoconhecimento potencializa o enfraquecimento das relações sociais no Brasil. Segundo o sociólogo Zygmunt Bauman, o momento atual configura-se como “modernidade líquida”, ou seja, dominado pela fragilização das interações humanas dentro da sociedade, tal superficialidade é oriunda do desenvolvimento da Revolução Industrial e seus avanços tecnológicos. Sob essa perspectiva, o comportamento “líquido” do indivíduo é incrementado pelo meio digital, o qual gera uma crise identitária sem os suportes emocionais necessários que agrava uma mentalidade nociva ao cidadão. Logo, é preciso combater a ausência do conhecimento de si próprio para a melhoria da qualidade de vida da população e o fortalecimento dos laços sociais.

Em paralelo, as condições de anonimato no meio tecnológico intensificam o quantitativo de falsidades ideológicas nas mídias sociais. Nesse sentido, a partir da possibilidade de não identificação e da criação de mais de um perfil “online”, juntamente com a insegurança pessoal, ocorre o fenômeno conhecido como “Catfish”. Essa expressão é comumente presente nas redes sociais feitas por pessoas sem confiança e que buscam aceitação dos padrões da sociedade, na qual criam identidades falsas e utilizam-se de dados não autorais para se comunicar nas plataformas digitais. Sob essa ótica, a série televisiva “Catfish: Brasil” foi uma afirmação do agravamento dos casos de fraude na “internet” no país, pois desvendou perfis “fakes”, os quais enganavam outros pelo uso de imagens atrativas ou dentro dos padrões de beleza para relacionar-se ou cometer algum crime. Portanto, existe a necessidade do conhecimento de si mesmo para impedir que esses fatos não cresçam em números expressivos.

Destarte, é notório as consequências da ausência de uma identidade pessoal. Dessa forma, cabe ao Ministério da Saúde desenvolver o autoconhecimento na população brasileira por meio da disponibilização gratuita de psicólogos nos espaços públicos e privados que busquem realizar atividades voltadas à área pessoal do indivíduo, objetivando mitigar essa crise identitária. Além disso, é dever do Ministério da Justiça fiscalizar casos de falsidade identitária nos ambientes “online” a partir da fiscalização da Lei Marco Civil da Internet, visando o fim desse crime no Brasil. Assim, há a possibilidade de convergir com o pensamento de Sócrates na atualidade.