Os efeitos da falta do autoconhecimento na era digital

Enviada em 24/05/2020

Ao pintar “O Grito”, Edvard Munch demonstra duas perspectivas de um mesmo cenário: enquanto o personagem central apresenta-se desesperado, os demais indivíduos mostram-se apáticos em relação a tal sofrimento. Contudo, esse contexto não se restringe a quadros expressionistas, visto que as vítimas dos efeitos da falta de autoconhecimento na era digital têm sido ignoradas pelo Estado e por parte da população. Nesse prisma, cabe analisar essa questão no país.

Primeiramente, nota-se que há uma falha por parte do Estado no processo de criação de leis. Isso porque a falta de autoconhecimento gera uma ruptura na conscientização de que as ações virtuais atingem pessoas reais fazendo com que discursos de ódio — como a “cultura do cancelamento” — sejam propagados com mais facilidade e, através do déficit na elaboração de ordenamentos jurídicos, a impunidade corrobore no incentivo dessa alienação. Essa ruptura da União para com o seu papel de regulador do bem-estar social, pode ser explicada através da teoria do contrato social elaborado pelo filósofo Jean-Jacques Rousseau.

Em segundo lugar, é possível observar que a população, ao permitir a ausência de democratização da assistência psicológica, banaliza o mal. Isso porque a falta de autoconhecimento gera padronização da identidade, já que as pessoas tendem a querer ter a vida perfeita que é vendida através das mídias sociais, o que ocasiona o desenvolvimento de problemas psicológicos — como a depressão e os distúrbios de imagem — que precisam de tratamento especializado e pouco acessível prejudicando a saúde pública. Esse contexto pode ser explicado por meio da teoria de banalidade do mal formulada pela filósofa Hanna Arendt, visto que por conta da massificação social as pessoas têm dificuldade em discernir o certo do errado.

Convém, portanto, ressaltar que é importante inibir os efeitos dessa problemática. Em primeiro lugar, é necessário que o Estado desenvolva leis especializadas em punir a proliferação da violência virtual por intermédio de multas, para que dessa forma tal prática seja vista como um ato criminoso e assim as pessoas obterão a consciência de que no mundo virtual seus atos trazem consequências. Também, é preciso conscientizar os cidadãos — por meio de campanhas publicitárias elaboradas por ONG’s — do seu papel como inibidor desse entrave, para que mediante a isso seja cobrado, por meio de debates públicos, o investimento financeiro estatal no fornecimento da assistência psicológica através do sistema único de saúde para população ajudando a coibir os efeitos psicológicos gerados. Dessa forma o Brasil poderá representar um contexto diferente do que foi retratado por Munch.