Os efeitos da falta do autoconhecimento na era digital

Enviada em 23/05/2020

O filósofo Pierre Lévy define a sociedade contemporânea como “hiperconectada”, haja vista o, exagerado, espelhamento cotidiano dos internautas nas redes. Nesse contexto, a falta de autoconhecimento dos usuários digitais torna-lhes tanto frustrados, por não alcançar os padrões de vida idealizados e expostos constantemente nas mídias, quanto vulneráveis à manipulação de dados existente nesse meio, privando-lhes de autonomia.

Em uma primeira análise, é importante ressaltar que, devido ao exibicionismo digital, muitos internautas acabam criando perspectivas de vida embasadas em recortes ,idealizados, do cotidiano de outras pessoas em mídias digitais. Tal cenário é propício para a frustração dos indivíduos que, por falta de autoconhecimento de seus limites e capacidades, buscam ,meramente, repetir trajetórias alheias. Nesse sentindo, é possível notar um esvaziamento dos laços humanos, sejam eles intrapessoais ou interpessoais, uma vez que as pessoas não buscam mais criar bases sólidas de suas personalidades e, segundo o filósofo  Zygmunt Bauman,  ao invés de sustentar práticas benéficas para si, ostentam seus relacionamentos em redes sociais. Exemplo disso é narrado pelo episódio “Queda Livre” da série “Black Mirror”, em que a personagem principal, depois de perder seu status nas mídias, percebe-se vazia de qualidades e benesses que podem ser aplicadas em uma vida offline.

Ademais, a mais nova estratégia de marketing da atualidade,o controle de dados cibernéticos, tem se mostrado como uma ameaça à autonomia individual, uma vez que cria propagandas  e plataformas cada vez mais personalizadas -embasadas no histórico de buscas do indivíduo-. Ou seja, a pessoa que não possui autoconhecimento é manipulada para aderir certas posturas nas redes. Nesse aspecto, como o controle de dados fere o princípio constitucional de autonomia individual, o Estado deve conscientizar o internauta para estar cada vez mais consciente de sua postura, afim de contornar a alienação , propagada pela estratégia de marketing.

Por fim, para liquidar os efeitos da falta de autoconhecimento na era digital, é necessário que o Estado adote algumas medidas conscientizantes. Primeiramente, o Ministério da Cidadania em parceria com ONGs deve promover debates, através das redes e com a contribuição de “influencers” famosos, acerca das idealizações de vida ,existentes nas mídias, e ampliar o conceito de autoconhecimento ,tal como seus benefícios, no contexto atual. Ademais, além de uma conscientização que precisa ser feita pelo Governo federal acerca da manipulação de dados, é importante que o Ministério Público esteja, constantemente, aferindo as estratégias de marketing de empresas para garantir que formas abusivas, tais como o acesso à dados sem a consciência do navegador, sejam penalizadas.