Os efeitos da falta do autoconhecimento na era digital

Enviada em 26/05/2020

De acordo com o pai da psicanálise, S. Freud, o indivíduo, ao ser inserido em um grupo, tende a suprimir suas peculiaridades para assumir as características predominantes do ambiente em que se encontra. Nessa lógica, o meio virtual amplifica essa tendência de unificação humana, por formar grupos que agora superam as barreiras físicas. Portanto, é necessário que os brasileiros possuam autoconhecimento, a fim de evitar esse processo de padronização e sua consequências, como a perda da liberdade e o aumento de patologias psíquicas.

Em primeira análise, o sociólogo da Escola de Frankfurt, Theodore Adorno, contribuiu para o desenvolvimento do conceito de Indústria Cultural, no qual ferramentas de comunicação promovem a despersonificação e posterior comercialização dos indivíduos. Isso ocorre porque, ao serem bombardeadas com produtos e ideologias consumistas, as pessoas que não possuem autoconhecimento apropriam para si o padrão de vida propagado pela indústria cultural sem perceber que estão sendo manipuladas a agir de um modo que contribua com a dinâmica capitalista. Desse modo, o desconhecimento acerca seus próprios anseios e necessidades trona os cidadãos ainda mais vulneráveis a instrumentos manipuladores na era digital.

Em segunda análise, o autoconhecimento é necessário para evitar doenças psicológicas, como depressão e ansiedade. Essa perspectiva é discutida no livro Sociedade da Transparência, do filósofo Byung-Chul Han, o qual afirma que a internet atua como uma espécie de “vitrine social” em que as pessoas exibem os aspectos positivos de sua vida. Nesse sentido, os indivíduos que não conhecem suas próprias limitações e peculiaridades se encaram como insuficientes quando não atingem o ideal utópico exibido no meio virtual. Dessa forma, torna-se propício o desenvolvimento de desequilíbrios psíquicos, visto que essas pessoas nunca ficam satisfeitas com suas conquistas pessoais, pois o seu parâmetro de êxito não é baseado em si próprias, mas no que é observado  na “vitrine social”.

Portanto, a fim de evitar as consequências da falta de autoconhecimento na era digital, é mister que o Ministério da educação, atrelado aos governos estaduais, aumente o domínio da população acerca de suas individualidades. Isso pode ocorrer com o incremento na Base Comum Curricular da matéria “inteligência emocional”, em que psicopedagogos auxiliem os discentes em processos de autocuidado, como a meditação, que irão direcionar a atenção, antes destinada aos produtos da indústria cultural e a comparação com padrões de vida exibidos na internet, para a observação dos seus próprios anseios e para o crescimento baseado em suas peculiaridades. Assim, será possível caminhar na direção contrária à tendência de uniformização  observada por Freud.