Os efeitos da falta do autoconhecimento na era digital

Enviada em 23/05/2020

“Decifra-me ou devoro- te”. A icônica frase dita pela esfinge a Édipo, em sua visita à cidade de Tebas, na tragédia grega Édipo rei, traduz bem o panorama da era digital: a busca por autoconhecimento é fundamental para a sobrevivência na modernidade. No entanto a falta dessa “ferramenta do bom convívio” traz, para o internauta, graves efeitos “devoradores” como a falta de autonomia e transtornos psíquicos que transformam as tecnologias da informação (T.I) em “esfinges” digitais.

A princípio, a matriz do problema é evidenciada ao se analisar que a falta conhecimento próprio na modernidade contribui, diretamente, com a ausência de autonomia pensante do indivíduo. Isso acontece quando se observa as T.I’s como perigosos mecanismos de tolhimento de liberdades haja vista que  essas ferramentas, quase sempre, estão a serviço de seus patrocinadores que se utilizam dos dados individuais para manipulação do usuário, induzindo-o ao consumo de determinado produto. O problema disso é que, segundo o conceito de alienação do filósofo Karl Marx, ao criar cenários indutores, é retirado do indivíduo o senso crítico em troca de ideologias do grupo dominante que  impõe padrões de vida e consumo ideais ao mercado, não deixando assim espaço para o autoconhecimento.

Além disso,  o problema se agrava ainda mais quando a ausência de conhecimento individual contribui diretamente com o desenvolvimento de transtornos psíquicos no “habitante da era digital”. Isso acontece com o uso inconsequente do “mundo virtual” que cria uma realidade paralela a qual, na maioria das vezes, traz consigo, panoramas totalmente destoantes da realidade o que, por sua vez, contribui com o surgimento de frustrações ao usuário. Essa questão fica ainda mais evidente por meio da matéria do Estadão que revelou estudos científicos comprovando que o uso inadequado das mídias sociais estão diretamente relacionados ao desenvolvimentos de quadros clínicos de depressão e pensamentos suicidas. Isso prova que a falta de conhecimento próprio no mundo virtual traz graves consequências para a vida real do usuário.

Portanto, é de extrema importância combater a falta do autoconhecimento na era virtual do país. Desse modo, o Estado deve atuar na promoção dessa busca individual ao atuar nos setores públicos, realizando eventos anuais como a “semana do internauta consciente”, com a participação de psicólogos e especialistas da área que levem conhecimento sólido sobre o tema a toda a população para, aos poucos, desenvolver as bases mentais para um bom uso do “mundo virtual”. Além disso, o Estado deve garantir apoio aos afetados pelos efeitos do mau uso digital por meio da criação de clínicas públicas de psicologia para oferecer tratamento gratuito à população. Só assim será garantido que a “esfinge virtual” não devore os cidadãos que “não conhecem a si mesmos”.