Os efeitos da falta do autoconhecimento na era digital

Enviada em 28/05/2020

Na obra distópica Admirável Mundo Novo, o autor Aldous Huxley retrata uma sociedade extremamente científica e modernizada, em que os cidadãos, submetidos à mecanismos de controle, têm suas liberdades e opiniões anuladas. Fora da ficção, é possível observar que a prática constante do autoconhecimento combate a submissão abordada no livro, na medida em que coloca o indivíduo no controle sobre si mesmo. Logo, na atual era digital, o autocontrole faz-se necessário para a garantia da liberdade individual, como também da saúde mental nas redes sociais.

A princípio, quando um indivíduo não conhece a si próprio, está sujeito à manipulação dos comportamentos. De acordo com o filósofo racionalista Baruch Spinoza, a verdadeira liberdade exige conhecer a si mesmo, pois somente a autonomia sobre si proporciona a compreensão da essência humana, não se tratando de conter emoções, mas de responder sob controle delas. Nessa lógica, a filosofia racional propõe que a reflexão é uma das condições existenciais do ser humano, ou seja, a autoanálise é necessária para uma convivência harmônica em sociedade. Na perspectiva do mundo digitalizado, não há espaço para o autoconhecimento, pois é evidenciada a acomodação cognitiva dos usuários com a terceirização da capacidade crítica. Sendo assim, a liberdade individual, de forma plena, requer a autonomia para diferenciar a informação necessária da dispensável.

Em segundo plano, a realidade virtual proporciona uma crise de identidade do usuário, visto que a vida nas redes sociais nos afasta da realidade. Em consonância a isso, popularizou-se nas redes, como o Facebook, “testes de personalidade”, baseados em perguntas sem fundamentação científica. Nessa analogia, o professor Larry Rosen, especialista em psicologia da tecnologia, alerta para a propensão dos internautas a distorcer suas características pessoais em busca de maior aceitação alheia. Diante disso, a falta de autoconhecimento representa uma ameaça à saúde mental, pois expõe indivíduos ao universo irreal e superficial das mídias sociais, inertes à própria essência.

Tendo em vista os fatos supracitados, perante a ameaça à liberdade e saúde do internauta na era digital, medidas devem ser tomadas para estimular o autoconhecimento. Para isso, sob a perspectiva de uma iniciativa a longo prazo, o Ministério da Educação deve promover a conscientização pelo ensino da filosofia e sociologia associada ao espaço digital, alertando sobre a importância da reflexão sobre a essência humana, a fim de garantir a liberdade sobre o comportamento, evidenciada pela filosofia de Spinoza. Paralelamente, o Ministério da Saúde deve realizar campanhas nas redes sociais, protagonizadas por “influenciadores digitais”, expondo os malefícios do uso exagerado das redes, de modo a incentivar a busca pela manutenção da saúde mental por meio da terapia e autoconhecimento.