Os efeitos da falta do autoconhecimento na era digital
Enviada em 27/05/2020
Autoconhecimento: a chave da liberdade cidadã
Com o advento da tecnologia, a modernidade estabeleceu uma realidade na qual as relações sociais, políticas e econômicas tornam-se cada vez mais imediatistas e dependentes dos meios digitais.Em contrapartida aos grandes benefícios oferecidos por esse processo, entretanto, é possível constatar a existência de um uso indevido da perspectiva informacional vigente como instrumento de dominação sobre os usuários. Tal processo, é resultado direto da não valorização do autoconhecimento por parte dos indivíduos, fator que fornece subsídio à manipulação do comportamento do cidadão, bem como à formação de pessoas alucinadas de sua realidade, constituindo o que a pensadora Clarisse Lispector nomeou como uma legião de sonsos essenciais a sociedade.
A princípio, é necessário destacar a maneira como os meios virtuais são capazes de utilizar a ausência de autoconhecimento na influência do comportamento das pessoas. Segundo o sociólogo Zygmunt Bauman, a era digital criou uma modernidade líquida na qual a dinamicidade do mundo constrói um contexto de incerteza sobre o futuro,perspectiva que estabelece um individualismo vazio dentro do cenário social. Sob essa ótica, apesar da defesa do espaço individual, os componentes da sociedade não valorizam o conhecimento próprio, realidade que,através da análise de algoritmos, é utilizada pelas plataformas eletrônicas como meio de manipular os conteúdos ao qual o usuário tem acesso.Assim o indivíduo é delimitado por uma espécie de bolha virtual que determina como ele deve agir e o que ele deve comprar, concretizando uma personalidade virtual ilusória.
Outrossim, a deficiência da autognose permite a alienação dos usuários do meio em que vivem,uma vez que na bolha social em que estes são inseridos apenas o aspecto superficial é exaltado,não existindo uma separação concreta entre a realidade e a ficção. Dessa maneira, a citação " conhece-te a ti mesmo" do filósofo Sócrates como forma de forma de garantir a sabedoria da cidadania na democracia grega nunca se fez mais verídica,tendo em vista que a influência da tecnologia sobre pessoas que não conhecem seu próprio ser as impede de ter autonomia e de atuar como cidadão.
Logo, assim como afirma a escritora Clarisse Lispector, a falta de autoconhecimento é a base da formação de indivíduos inertes a realidade e facilmente manipulados.É fundamental, portanto,o papel do Estado e da mídia na criação de alertas nos meios virtuais visando de impedir a formação dessas “bolhas” e perpetuar políticas públicas que, juntamente com as escolas, oriente os indivíduos desde a infância sobre a necessidade do autoconhecimento através de atividades e palestras que estimulem a auto-reflexão e a autonomia, a fim de formar cidadãos pensantes e atuantes na sociedade.