Os efeitos da falta do autoconhecimento na era digital
Enviada em 25/05/2020
A série “Black Mirror” retrata uma realidade dominada pela tecnologia. Saindo da óptica ficcional, a sociedade brasileira atual vive a chamada “era digital”. Isso facilita a vida de diversas pessoas no que diz respeito à comunicação e o acesso à informação, porém se torna uma ameaça quando os indivíduos não têm capacidade crítica para filtrar os conteúdos acessados e acabam por tornar-se facilmente manipuláveis. Além disso, a falta de autoconhecimento pode gerar uma manipulação de consumo e transtornos como depressão e ansiedade, tornando a internet completamente prejudicial.
Michel Foucault, filósofo francês, define a sociedade como uma estrutura formada por seres influenciáveis e com pouco censo crítico, chamados de “corpos dóceis”. Esses indivíduos são controlados a partir de saberes e discursos, que legitimam o poder e os tornam vulneráveis a transformações. No meio digital, essa influência se dá pelo controle de informações pessoais e dados privados que, quando inseridos nos sites e redes sociais pelo próprio usuário, tornam-se ferramentas para “controlar” o que a pessoa acessa. Por meio dos mesmos, há uma escolha de propagandas ou conteúdos que possivelmente se adequariam ao perfil do indivíduo, tratando-o como o corpo dócil defendido por Foucault e passando a manipulá-lo a partir de informações inseridas por ele e consentidas a partir dos termos de uso do programa, que na maioria das vezes nem é lido.
O crítico literário Antônio Cândido diz que a arte existe para equilibrar a vida. Tal citação se enquadra perfeitamente no cenário das redes sociais, que funcionam para as pessoas, muitas vezes, como uma forma de escapar da rotina e dos problemas pessoais. Todavia, o uso indevido dessas tecnologias também pode ser prejudicial à saúde, podendo causar problemas como ansiedade e depressão. Esses transtornos são, muitas vezes, reflexos da busca incessante por felicidade, que constrói um imaginário de “perfeição” veiculado às vidas expostas nas redes sociais. Pierre Bourdieu , sociólogo francês, define como “habitus” a interiorização do exterior e a exteriorização do exterior, e é esse ciclo que ocorre no meio digital. A mídia envolvida nisso expõe a todo momento milhares de informações, tornando todos suscetíveis a essa idealização e reprodução de comportamentos.
Assim, para que não ocorra a manipulação do comportamento do usuário no meio digital, as empresas devem deixar os termos de uso mais evidentes, destacando-os na tela e garantindo a leitura desse material. É indicado que as pessoas leiam essas regras para que não exponham seus dados sem consciência. Além disso, para reduzir os problemas de saúde relacionado ao mau uso da internet, as redes sociais devem oferecer suporte e ajuda aos seus usuários, por meio de plataformas com atendimento 24 horas e de forma anônima. Só assim as pessoas farão bom uso do meio digital.