Os efeitos da falta do autoconhecimento na era digital

Enviada em 05/06/2020

No livro “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley, é retratado uma realidade distópica em que o Estado totalitário cria, artificialmente, pessoas e as manipulam a fim de modelar a vida dessas de acordo com o sistema de casta. Nesse sentido, a narrativa foca no personagem Bernard Marx, um funcionário Alfa-mais, que tenta de se liberta dessa manipulação. Fora da ficção, é notória a semelhança dessa obra com o atual mundo digital: os internautas estão, pela sua falta de autoconhecimento, sendo manipulados ao navegarem na internet pelos algoritmos de análise de dados, bem como pelo popularismo das redes sociais.

Em primeira análise, é importante ressaltar que, em função do desenvolvimento de novas tecnologias, os navegadores estão, constantemente, expostos a conteúdos e publicidades específicas, que os influenciam de modo íntimo em virtude dos mecanismos de análise de perfil. Por exemplo, no documentário “Privacidade Hackeada”, é demonstrado como a empresa Cambridge Analytica utilizou dados pessoais – obtidos de modo ilegal – para manipular a eleição de presidente dos Estados Unidos em 2016 e o referendo do Brexit. Portanto, os usuários expostos sempre ao mesmo tipo de informações são, lentamente, modelados como visto em “Admirável Mundo Novo”.

Em segunda análise, é imprescindível destacar que, atualmente, as relações sociais se tonaram, preponderantemente, virtuais e aqueles que não se encaixam nela são, geralmente, excluídos. Do ponto de vista do sociólogo Zigmunt Bauman, os indivíduos se tornaram ao mesmo tempo vendedores e o próprio produto, ao passo que, nas redes sociais, as pessoas se modelam de acordo com o que é popular no momento para ganharem reconhecimento e status sociais não reconhecendo a sua própria personalidade. Dessa forma, o ambiente social é agora um tipo de mercado em que o estereótipo ideal são os influenciadores digitais.

Diante do exposto, para que autonomia dos internautas sejam retomadas é mister que o poder Legislativo crie, por meio de um debate político em que a opinião dos cidadãos prevaleça, leis rígidas que impeçam a venda e o compartilhamento dos dados digitais - o Marco Civil da internet não impede isso - a fim de que as suas personalidades não sejam modeladas. Ademais, cabe o Ministério da Educação estimular, por meio de aulas, principalmente de filosofia crítica, que discutem sobre a falta de autonomia nas redes sociais, o senso crítico dos estudantes diante do ascendente popularismo para que esses não sejam manipulados.