Os efeitos da falta do autoconhecimento na era digital
Enviada em 11/06/2020
Inscrita no Oráculo de Delfos e consagrada na filosofia aristotélica, a famosa máxima “conhece-te a ti mesmo” revela, entre tantos aspectos, o quão antiga é a preocupação humana acerca do autoconhecimento. No entanto, em nenhum outro tempo esse conselho heleno se fez tão necessário como agora; pois, aqueles que desconhecem a sua própria natureza, em um mundo redimensionado pelas mídias sociais, acabam à deriva em um mar de “likes”, anúncios e comentários nas redes. Nesse caos moderno, essa sabedoria do eu é útil ao homem tal qual a bússola aos navios.
Em primeiro lugar, enfatiza-se o ponto mais importante: ao invés de buscar o autoconhecimento, a sociedade contemporânea cada vez mais o ignora. A origem desse desencanto, por sua vez, é o excesso de importância dada à tecnologia — como Ícaro, as pessoas estão se deixando levar pelas asas do avanço tecnológico. Todavia, desinteressar-se por si mesmo é sempre algo negativo. Prova disso é a relação existente entre a falta do conhecimento de si e o crescimento vertiginoso das patologias associadas ao uso das redes sociais. A depressão, por exemplo, cuja explosão de casos na década fez com que a OMS a colocasse no topo da lista de causas de problemas de saúde em 2017, é o caso clínico do desencontro das expectativas com a realidade, uma frustração por não concretizar aquilo que foi idealizado; entretanto, o problema é que, hoje, o que se idealiza não é, de fato, legítimo, são expectativas condicionadas a partir de fotos e comentários nas redes.
Por outro lado, ressaltam-se os danos que a carência dessa sabedoria de si pode desencadear na sociedade como um todo. Os chamados “algoritmos de recomendação”, por exemplo, filtram o conteúdo a ser visualizado nos sites por meio das buscas anteriores do usuário e de seus amigos, controlando, assim, aquilo que será recomendado ou não em futuras pesquisas. Portanto, um sujeito já alinhado politicamente, tende a receber sempre o mesmo conteúdo com o qual já concorda, sendo influenciado à reconfirmar as convicções já estabelecidas em uma falsa impressão de escolha. Dessa forma, as opiniões prévias, que decorrem, em geral, do senso comum e não de autocríticas racionais, isolam os indivíduos nas “bolhas sociais” totalmente nocivas à democracia.
Em suma, esses motivos ratificam a importância de conhecer-se a si mesmo na modernidade. Por isso, cabe à sociedade e ao Estado incentivar essa procura; nessa linha, é a escola o ponto de partida da mudança, pois é ela que está em contato direto com os alunos e seus pais. É preciso, então, que sejam promovidas palestras periódicas de filosofia relacionando a ética com a internet, para que, assim, seja possível equilibrar o progresso tecnológico com uma forma mais apropriada e saudável de uso.