Os efeitos da falta do autoconhecimento na era digital

Enviada em 10/06/2020

O episódio “Nosedive”, do seriado televisivo “Black Mirror”, relata uma sociedade distópica, em que os cidadãos camuflam suas verdadeiras identidades para incorporar um personagem ideal, facilmente aceito pelas massas nas redes sociais. Embora ficcional, tal narrativa não destoa da realidade presente no Brasil e destaca um problema em ascensão: os efeitos da falta de autoconhecimento na era digital. Nesse sentido, não há dúvidas que, gradativamente, a necessidade de aparentar perfeição e a homogeneidade contemporânea, a qual a população está submetida, corroboram que a autognosia seja negligenciada.

Convém ressaltar, primordialmente, a constante efervescência por aprovação de outrem e a obrigação em ter a vida perfeita idealizada como principais obstáculos para promover o autoconhecimento. À vista disso, o escritor Guy Debord explica, na obra “Sociedade do espetáculo”, que as pessoas performam o mais perfeito de si, e assim emitem padrões socialmente aceitos, mas que não necessariamente refletem suas personalidades. Paralelamente, é visto, na era digital, o mesmo espetáculo descrito por Guy Debord: para sentir-se incluso em um corpo social, os cidadãos, sem o conhecimento sobre si mesmos, ignoram suas singularidades e personificam uma realidade impecável.

Ademais, destaca-se, como decorrência da ínfima autognose no mundo virtual, a homogeneidade e os filtros comportamentais em que os indivíduos estão sujeito, fortemente influenciada pela Revolução Científica e seus padrões. Nesse ínterim, de acordo com Michel Foucault, no conceito de sociedade disciplinar, o poder articula-se em uma linguagem que cria mecanismos de controle para aumentar a subordinação. Desse modo, o discurso hegemônico afeta aqueles que não tem discernimento de suas particularidades e características ao moldar o comportamento e gerar desinteresse ao desenvolvimento individual.

Logo, urge a intervenção das autoridades competentes para que esse revés possa ser atenuado. Por isso, o Governo Federal deve, em parceria com empresas de veículos midiáticos, criar um projeto de cunho conscientizador, por meio de propagandas televisivas, que evidencie os efeitos da falta de autoconhecimento na era digital. Dessarte, tal ação, que tem a finalidade de retirar os cidadãos da bolha social na qual estão submetidos e promover o apreço por identificar suas particularidades em um mundo padronizado, deve, inclusive, ser disponibilizada no site do ministério, para atingir um maior número demográfico e democratizar o acesso ao autoconhecimento. Somente assim, poder-se-á fazer com que a história narrada em “Black Mirror” volte, preferencialmente, para a ficção.