Os efeitos da falta do autoconhecimento na era digital

Enviada em 27/07/2020

No conto “O espelho”, Machado de Assis apresenta a história de Jacobina, recém-nomeado alferes, e sua crise de identidade ao se encontrar sozinho e diante de um espelho sem a farda. Em analogia com a realidade atual, usamos como farda as redes sociais para demonstrar uma vida que não nos pertence a troco de “curtidas e de reações”, levando-nos, ao longo do tempo, a criar uma versão própria fantasiosa para suprir a carência de atenção, gerada pela falta de autoconhecimento.

Primeiramente, a era digital encurtou distâncias, mas criou uma poderosa rede de difusão de comportamentos padrões, como a beleza. Considerando a diversidade fenotípica da espécie humana, torna-se evidente que um ideal único de belo é nocivo, pois faz com que as pessoas busquem uma aceitação social que destrói a identidade individual, assim como aconteceu com o jovem alferes, levando-os a desenvolver um sentimento de anomia: o não pertencer, responsável por desencadear a depressão e a ansiedade, vilãs do mundo pós-moderno.

Paralelamente a isso, a vida baseada em um estado de contemplação do parecer em detrimento do ser resulta na perpetuação do sistema de alienação promovido pelas grandes indústrias. Como estamos ocupados em querer pertencer e desfrutar dos benefícios de uma realidade inventada, banalizamos o valor próprio do ser singular, que deveria ser considerado, já que, em relação a evolução, a variabilidade genética e morfológica potencializam as chances de uma população de sobreviver.

Portanto, os efeitos da falta de autoconhecimento na era digital resultam em um problema social grave e que precisa ser resolvido. Dessa forma, a família, por meio do diálogo, deve acompanhar a rotina dos filhos na internet para que não se tornem dependentes da tecnologia para se sentirem parte da sociedade, realizando passeios em locais públicos, como parques e praças, sem o uso de aparelhos digitais, garantindo uma boa interação com o meio. A escola, com apoio do governo, pode oferecer palestras, com psicólogos e professores de história e de biologia, para que os estudantes compreendam que a diferença é importante para o sucesso evolutivo de uma espécie e para o bem-estar individual, sendo necessário se autoconhecer e se valorizar. Com essas ações, poderemos parar diante de um espelho e retirar a farda, pois o que está por debaixo dela é mais significante do que a função social que ela exerce; afinal, não há crise existencial se há autoconhecimento.