Os efeitos da falta do autoconhecimento na era digital
Enviada em 24/08/2020
A segunda metade do século XX assistiu à difusão de culturas e práticas orientais nos EUA e em todo o ocidente, como o Budismo e a Yoga. Em comum, entre elas, a promessa de autoconhecimento e a libertação das limitações que a sociedade impõe ao desenvolvimento dos indivíduos. Entretanto, as últimas décadas, marcadas pela forte informatização, trouxeram obstáculos novos para o processo de busca do “eu”.
Primeiramente, é importante destacar que o ser humano é um animal de cultura, e, de acordo com Leontiev e a Psicologia Sócio-Histórica, esse elemento o difere das demais espécies. Isso significa que, enquanto na natureza os demais seres nascem completos, biologicamente determinados, o homem, ao contrário, precisa se construir, tendo, para isso, infinitas possibilidades. Esse processo de formação do “self” se daria pela internalização de objetos culturais, no seu sentido mais amplo. Entretanto, ainda na primeira metade do século XX, o autor russo assinalava que a má distribuição de recursos entre as diferentes nações impedia o desenvolvimento pleno da espécie humana. Em outras palavras, a individuação seria uma possibilidade, mas impedida pelas condições históricas em que o mundo se encontrava.
Desde então, novos elementos surgiram, modificando as relações humanas e a transmissão do conhecimento. A informatização da sociedade trouxe a promessa de democratizar o acesso a bens culturais e promover inclusão. No entanto, a chamada “era digital” tem duplo aspecto, pois ao mesmo tempo em que facilita a comunicação, aumenta o poder da propaganda e o controle que as empresas têm sobre seus potenciais consumidores. Além disso, é conhecido o investimento que a indústria do entretenimento faz em técnicas para atrair a atenção dos usuários da internet. Assim, mais do que nunca, é importante que as pessoas sejam educadas para terem consciência dessa engrenagem, o que possibilitaria a cada um se situar, fazendo escolhas de maneira consciente.
Portanto, uma medida que seria de possível implementação para diminuir o problema é o Ministério da Educação incluir a autorreflexão no currículo do ensino básico. Faria isso estabelecendo círculos de discussão nos ensinos fundamental e médio, conduzidos por pedagogos e psicólogos com o devido preparo para tal. Essa medida objetivaria não apenas o desenvolvimento da consciência de si, mas também seria um estímulo para que tal processo reflexivo tivesse continuidade durante toda a vida do cidadão, visto que, de acordo com a Psicologia Sócio-Histórica, o desenvolvimento da mesma se daria durante toda a história de uma pessoa, e não apenas na sua juventude. Dessa forma, seria possível a criação de uma sociedade mais feliz, construída por indivíduos realizados e cientes de si.