Os efeitos da falta do autoconhecimento na era digital

Enviada em 11/09/2020

No livro “Jogos Vorazes”, da escritora americana Suzanne Collins, a protagonista Katniss vive um cenário distópico em que o seu distrito é politicamente regido por uma metrópole detentora de tecnologias avançadas, o que a permite promover uma autopropaganda não condizente com a verdade e moldar, assim, indivíduos acríticos e possuidores de uma visão de mundo deturpada. Trazendo a ideia central da obra para a realidade, é possível observar uma verossimilhança no que diz respeito aos efeitos causados pela falta de autoconhecimento na era digital, que desembocam em um excesso de susceptibilidade política, além de contribuir para uma retroalimentação da construção dessas individualidades pouco sólidas e pautadas em pilares exteriores aos indivíduos.

Em primeira análise, é evidente que ideias pobremente desenvolvidas acerca de si e do mundo são prejudiciais no que se refere ao âmbito político da vida moderna. O conceito de “Docilização dos Corpos”, proposto pelo filósofo Michael Foucalt, traz consigo a concepção de que as sociedades são trabalhadas por grandes corporações para serem disciplinadas e prestarem obediência absoluta, facilitando, assim, um processo de dominação político-econômica e social sobre elas. Isso implica dizer que, possuindo conhecimento pouco - ou nulo - de suas subjetividades, um grupo de pessoas é manipulado com mais facilidade por cargas ideológicas fortemente difundidas no meio digital e, por consequência, influenciado a tomar decisões que não necessariamente dizem respeito às suas próprias percepções e valores.

Em segunda análise, é importante ressaltar que a ausência de autoconhecimento, quando introduzida na internet, retroalimenta a formação de indivíduos com essa mesma incapacidade de construir e consolidar suas personalidades por conta própria. Segundo o educador brasileiro Mário Sérgio Cortella “as pessoas não navegam na internet, naufragam”, o que significa dizer que, dada a imensa quantidade de informações absorvidas diariamente pelo usuário digital, este é bombardeado por influências externas e impedido de desenvolver uma emancipação informacional e uma proatividade no que concerne à sua formação enquanto um ser pensante.

Depreende-se, portanto, que o debate sobre a importância do autoconhecimento na era digital é de extrema importância e deve ser amplamente promovido pelas instituições de ensino e, em especial, pelas escolas, por meio de palestras e discussões em sala de aula, com a presença de especialistas nas áreas que configuram as ciências sociais, bem como psicólogos e outros estudiosos do desenvolvimento humano, com o objetivo de formar uma geração futura verdadeiramente pensante, empoderada e capaz de enfrentar quaisquer “docilizações de corpos” que ameaçem a sua liberdade.